{"id":57829,"date":"2026-06-11T04:41:39","date_gmt":"2026-06-11T07:41:39","guid":{"rendered":"https:\/\/jornadasdaebprio.com.br\/2026\/?p=57829"},"modified":"2026-06-11T04:41:39","modified_gmt":"2026-06-11T07:41:39","slug":"leitura-e-escrita","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jornadasdaebprio.com.br\/2026\/leitura-e-escrita\/","title":{"rendered":"Leitura e escrita"},"content":{"rendered":"<h5><em>Bruna M. Guaran\u00e1 e Isabel do R\u00eago Barros<\/em><\/h5>\n<p>Do que \u00e9 feito um sintoma? Depende de que sintoma estamos falando. O sintoma freudiano, podemos entend\u00ea-lo \u00e0 luz da express\u00e3o de Lacan \u201cenvoltura formal do sintoma\u201d, usada em 1966. Essa defini\u00e7\u00e3o est\u00e1 intrinsecamente ligada \u00e0 \u201croupagem\u201d de linguagem do sintoma e aponta, segundo Miller, para o mecanismo significante, a partir do qual h\u00e1 efeitos de sentido. Freud, logo no in\u00edcio de sua \u201cConfer\u00eancia XVII \u2013 O sentido dos sintomas\u201d, afirma que:<\/p>\n<blockquote><p>[&#8230;] a psiquiatria cl\u00ednica atenta pouco para a forma externa do conte\u00fado dos sintomas individualmente considerados, que a psican\u00e1lise, entretanto, valoriza precisamente este ponto e estabeleceu em primeiro lugar que os sintomas t\u00eam um sentido e se relacionam com as experi\u00eancias do paciente. (FREUD, 1988, p. 305)<\/p><\/blockquote>\n<p>Diferentemente do lugar dado ao sintoma pela psiquiatria cl\u00ednica, ele \u00e9 descrito aqui ao lado de outras forma\u00e7\u00f5es do inconsciente, os lapsos, esquecimentos e sonhos, que t\u00eam uma importante conex\u00e3o com a vida de quem os produz: \u201cQuanto mais individual for a forma dos sintomas, mais motivos teremos para esperar que seremos capazes de estabelecer essa conex\u00e3o [com a vida do paciente]\u201d (FREUD, 1988, p. 319).<\/p>\n<p>Essa perspectiva vai ao encontro do que Lacan afirma, na \u201cConfer\u00eancia em Genebra\u201d, quando diz: \u201cO que s\u00e3o os sonhos sen\u00e3o sonhos relatados? \u00c9 no processo de seu relato que se l\u00ea o que Freud chama seu sentido.\u201d (LACAN, 1998, p. 6).<\/p>\n<p>A leitura aqui implicada leva em conta a dimens\u00e3o de escrita da pr\u00f3pria maquin\u00e1ria significante em jogo na forma\u00e7\u00e3o do sintoma. Essa escrita \u00e9 lida sob dois aspectos: tanto atrav\u00e9s do pr\u00f3prio sintoma, sua forma, quanto atrav\u00e9s do que se enuncia dele na narrativa de quem o vive.<\/p>\n<p>Vejamos uma coisa, como Freud l\u00ea os casos dos quais fala?<\/p>\n<p>Na ocasi\u00e3o da \u201cConfer\u00eancia XVII \u2013 O sentido dos sintomas\u201d, Freud demonstra, atrav\u00e9s de dois fragmentos cl\u00ednicos de histeria, a forma como l\u00ea o que diz serem os sintomas obsessivos: atrav\u00e9s de seu car\u00e1ter de obrigatoriedade.<\/p>\n<p>O primeiro caso, como bem resume Miller em \u201cSemin\u00e1rio sobre os caminhos da forma\u00e7\u00e3o dos sintomas\u201d, trata de uma mulher que, atrav\u00e9s de um ritual singular, tenta compulsivamente proteger o marido impotente. O segundo \u00e9 um cerimonial de dormir que coloca em cena a n\u00e3o rela\u00e7\u00e3o sexual, recoberta pelo v\u00ednculo libidinal com o pai.<\/p>\n<p>Nesses dois exemplos, especialmente no primeiro, \u00e9 interessante notar a singularidade na forma de \u201cfalar\u201d ou de se expressar desse sintoma. A paciente se desloca do seu quarto at\u00e9 um outro contiguo ao seu, se posiciona de tal maneira ao lado de uma mesa colocada no meio do aposento, soa a campainha para chamar a empregada, lhe d\u00e1 algum recado ou a dispensa sem maiores explica\u00e7\u00f5es e retorna ao seu quarto.<\/p>\n<p>Todo esse mecanismo \u00e9 no m\u00ednimo inusitado. Mas o que Freud l\u00ea a\u00ed, a partir da sua hip\u00f3tese do inconsciente, \u00e9 a maneira que teve o sujeito de falar atrav\u00e9s desse seu sintoma. H\u00e1 toda uma revolu\u00e7\u00e3o epist\u00eamica que essa forma de leitura promove.<\/p>\n<p>Num primeiro momento, ent\u00e3o, essa subvers\u00e3o na maneira de ler o sintoma levou Freud a afirmar que o sintoma desapareceria quando se fizessem consciente seus motivos predeterminantes inconscientes. Aquilo que estava recalcado seria liberado pela interpreta\u00e7\u00e3o e o opaco do sintoma seria subjetivado. \u00c9 o que Miller chama de \u201cotimismo interpretativo freudiano.\u201d (MILLER, 2011, p. 332).<\/p>\n<p>O princ\u00edpio \u00e9 excelente, mas faltaria avisar isso para os sintomas. Os pr\u00f3prios sintomas desconhecem esse princ\u00edpio, n\u00e3o s\u00e3o movidos por essa l\u00f3gica. Ainda que alguns sintomas possam se desfazer, h\u00e1 algo que caminha e se desloca, retornando sob outras formas.<\/p>\n<p>O pr\u00f3prio Freud se d\u00e1 conta desse otimismo iniciante e afirma que os pacientes, paradoxalmente, sofrem de seus sintomas, mas n\u00e3o parecem t\u00e3o desejantes de se liberarem deles. Passam a resistir, n\u00e3o ser t\u00e3o colaborativos ap\u00f3s o entusiasmo da entrada em an\u00e1lise. \u00c9 a partir da\u00ed, do encontro com a resist\u00eancia, que Freud reconhece o aspecto de gozo presente no sintoma, sua fun\u00e7\u00e3o de satisfa\u00e7\u00e3o substitutiva.<\/p>\n<p>Voltando a tomar Miller, reconhecemos no sintoma um \u201ca mais\u201d que n\u00e3o h\u00e1 em outras forma\u00e7\u00f5es do inconsciente: h\u00e1 uma opacidade que dura e que transforma o corpo, \u00e0 diferen\u00e7a do sonho, por exemplo. \u00c9 o que faz Freud introduzir o fator econ\u00f4mico e afirmar ser ele uma \u201csatisfa\u00e7\u00e3o substituta daquilo que se perde na vida\u201d ou do que seriam os \u201cdesejos sexuais\u201d. O enfoque passa para o ponto de vista libidinal e econ\u00f4mico (FREUD, 1988, p. 352).<\/p>\n<p>Assim, como os rituais de dormir mencionados no texto de Freud podem ser entendidos como medidas defensivas contra recorda\u00e7\u00f5es e tenta\u00e7\u00f5es sexuais, os sintomas realizam substitutivamente aquilo de que se defendem. \u00c9 isso o que deixa em evid\u00eancia, segundo Miller, o car\u00e1ter de forma\u00e7\u00e3o de compromisso do sintoma e a conex\u00e3o entre gozo e defesa. A partir da \u201cConfer\u00eancia XVII\u201d, nas seguintes confer\u00eancias at\u00e9 a XXIII \u2013 \u201cO caminho da forma\u00e7\u00e3o dos sintomas\u201d, esse fator libidinal vai ganhando cada vez mais destaque.<\/p>\n<p>Na \u201cConfer\u00eancia XXIII\u201d, a libido pode ser sublimada ou sintomatizada. Freud estuda os caminhos da sua sintomatiza\u00e7\u00e3o, mas esse n\u00e3o \u00e9 seu \u00fanico destino.<\/p>\n<p>Considerando esses dois aspectos, o sintoma como escrita a ser lido e o sintoma como satisfa\u00e7\u00e3o que toca o corpo, introduzimos a seguinte pergunta, a ser explorada pelas diversas contribui\u00e7\u00f5es cl\u00ednicas que esperamos receber para animar nossas Jornadas: como se faz na pr\u00e1tica cl\u00ednica para n\u00e3o perder de vista esse \u201ca mais\u201d do sintoma em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s outras forma\u00e7\u00f5es do inconsciente e buscar dar a esse aspecto espec\u00edfico algum destino tamb\u00e9m pela leitura? Em outras palavras, como a leitura do sintoma em an\u00e1lise pode tocar o aspecto de gozo presente nele?<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<h6><strong>Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas<\/strong><\/h6>\n<h6>FREUD, S. (1917). Confer\u00eancia XVII \u2013 O sentido dos sintomas. In: _____. <strong>Confer\u00eancias introdut\u00f3rias sobre psican\u00e1lise<\/strong>. v. XVI, ESB, 1988.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1975). Confer\u00eancia em Genebra sobre o sintoma. <strong>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana: <\/strong><strong>Revista Brasileira Internacional de Psican\u00e1lise<\/strong>, n. 23, S\u00e3o Paulo, E\u00f3lia, dez. 1998, p. 6.<\/h6>\n<h6>MILLER, J-A. Semin\u00e1rio sobre os caminhos da forma\u00e7\u00e3o dos sintomas. <strong>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana<\/strong>, n. 60, set. 2011.<em>\u00a0<\/em><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Bruna M. Guaran\u00e1 e Isabel do R\u00eago Barros Do que \u00e9 feito um sintoma? Depende de que sintoma estamos falando. O sintoma freudiano, podemos entend\u00ea-lo \u00e0 luz da express\u00e3o de Lacan \u201cenvoltura formal do sintoma\u201d, usada em 1966. 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