{"id":57831,"date":"2026-06-11T04:42:32","date_gmt":"2026-06-11T07:42:32","guid":{"rendered":"https:\/\/jornadasdaebprio.com.br\/2026\/?p=57831"},"modified":"2026-06-11T04:42:50","modified_gmt":"2026-06-11T07:42:50","slug":"corpo-e-gozo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jornadasdaebprio.com.br\/2026\/corpo-e-gozo\/","title":{"rendered":"Corpo e gozo"},"content":{"rendered":"<h5><em>Maria Antunes e Leonardo Miranda<\/em><\/h5>\n<p>Na orienta\u00e7\u00e3o lacaniana, o corpo n\u00e3o se reduz a uma realidade biol\u00f3gica, mas constitui um efeito da incid\u00eancia da linguagem sobre o\u00a0<em>corpo<\/em>. Nessa perspectiva, o sintoma \u00e9 compreendido como uma modalidade singular de tratamento do gozo, articulando-se \u00e0 no\u00e7\u00e3o de falasser e aos modos pelos quais cada sujeito responde ao real que escapa \u00e0 simboliza\u00e7\u00e3o. A investiga\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es entre corpo, gozo e sintoma permite examinar tanto as formas contempor\u00e2neas de subjetiva\u00e7\u00e3o quanto os efeitos dos discursos sociais sobre a economia libidinal e os processos de constitui\u00e7\u00e3o subjetiva.<\/p>\n<p>Ao longo de seu ensino, Lacan promove importantes deslocamentos na concep\u00e7\u00e3o de corpo. Se, inicialmente, o corpo \u00e9 abordado a partir de sua dimens\u00e3o imagin\u00e1ria, tal como formulada no est\u00e1dio do espelho, posteriormente novas dimens\u00f5es s\u00e3o incorporadas \u00e0 sua elabora\u00e7\u00e3o. Em seu \u00faltimo ensino, o corpo \u00e9 concebido como suporte do gozo e como efeito da incorpora\u00e7\u00e3o do simb\u00f3lico: \u201cO corpo, [&#8230;] abordado por Lacan pelo imagin\u00e1rio pela identifica\u00e7\u00e3o, nesse registro, deixa de ser situado segundo um ponto simb\u00f3lico no exterior; agora, ele \u00e9 captado pela incorpora\u00e7\u00e3o direta do simb\u00f3lico\u201d (LAURENT, 2016, p. 31).<\/p>\n<p>Nessa mesma dire\u00e7\u00e3o, o sintoma deixa de ser considerado apenas\u00a0como\u00a0uma mensagem a ser decifrada para ser pensado tamb\u00e9m em sua dimens\u00e3o de gozo, resistente \u00e0 interpreta\u00e7\u00e3o. \u00c9 nesse contexto que Lacan o define como um acontecimento de corpo: \u201c[&#8230;] o sintoma se limita a uma pura escrita sobre o corpo, ele n\u00e3o fala. Abre-se na an\u00e1lise, desde ent\u00e3o, uma experi\u00eancia que n\u00e3o passa pela fala\u201d (LAURENT, 2016, p. 46). O que n\u00e3o implica a exclus\u00e3o da fala da experi\u00eancia anal\u00edtica, mas indica que esta n\u00e3o se reduz \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de sentido. A an\u00e1lise passa pela fala para alcan\u00e7ar aquilo que, no sintoma, se inscreve como marca de gozo sobre o corpo.<\/p>\n<p>Na\u00a0\u201cConfer\u00eancia em Genebra sobre o sintoma\u201d, Lacan afirma que \u201c\u00e9 sempre com a ajuda das palavras que o homem pensa. E \u00e9 no encontro dessas palavras com o seu corpo que alguma coisa se esbo\u00e7a\u201d\u00a0(LACAN, 1975, p. 9). Tal formula\u00e7\u00e3o indica que o corpo humano n\u00e3o constitui um dado natural anterior \u00e0 linguagem, mas \u00e9 marcado pela incid\u00eancia do simb\u00f3lico. No \u00faltimo ensino, esse encontro entre o corpo e <em>lal\u00edngua <\/em>pode ser concebido como traum\u00e1tico, na medida em que produz marcas de gozo que n\u00e3o se reduzem ao sentido e que encontram no sintoma uma forma singular de inscri\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong><em>Lal\u00edngua<\/em>, linguagem e corpo<\/strong><\/p>\n<p>Nessa mesma confer\u00eancia, Lacan compara o corpo a uma peneira que ret\u00e9m pequenos detritos da \u00e1gua da linguagem. \u00c9 com esses detritos que a crian\u00e7a vai brincar e mais tarde ter que se virar. Ele vai chamar esses detritos de <em>lal\u00edngua<\/em>. E n\u2019<em>O semin\u00e1rio, livro 23: o sinthoma<\/em> (1975-1976), Lacan vai dizer que o corpo se apresenta inicialmente como uma superf\u00edcie, uma linha reta, composta por uma multiplicidade de S1 soltos, um excesso de gozo.<\/p>\n<p>Patricio \u00c1lvarez Bay\u00f3n (2024), retomando todo o percurso de Lacan e os avan\u00e7os de Miller e Laurent sobre <em>lal\u00edngua<\/em> na cl\u00ednica com o\u00a0autismo, retomar\u00e1 que para a constru\u00e7\u00e3o de um corpo ser\u00e1 necess\u00e1rio que haja uma elucubra\u00e7\u00e3o de saber por parte da crian\u00e7a. Essa elucubra\u00e7\u00e3o de saber ocorre por meio da amarra\u00e7\u00e3o entre o real, o simb\u00f3lico e o imagin\u00e1rio. \u00c9 essa amarra\u00e7\u00e3o que constitui uma borda para o furo e, consequentemente, possibilita a constitui\u00e7\u00e3o de um corpo.<\/p>\n<p>Nessa perspectiva, temos nos perguntado de que modo esses S1 soltos que constituem o corpo \u2013 aquilo que Lacan denomina <em>lal\u00edngua<\/em> \u2013 se apresentam na cl\u00ednica como algo que ressoa e d\u00e1 not\u00edcias de que nessa amarra\u00e7\u00e3o entre real, simb\u00f3lico e imagin\u00e1rio haver\u00e1 sempre algo desse furo, desse gozo, que insiste em ressoar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6><strong>Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas<\/strong><\/h6>\n<h6>\u00c1LVAREZ BAY\u00d3N, P. <strong>O autismo, entre al\u00edngua e a letra<\/strong>. Vit\u00f3ria: C\u00e2ndida, 2024.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1975). Confer\u00eancia em Genebra sobre o sintoma. <strong>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana: Revista Brasileira Internacional de Psican\u00e1lise<\/strong>, S\u00e3o Paulo: E\u00f3lia, n. 23, p. 6-16, dez. 1998.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1975-1976). <strong>O semin\u00e1rio, livro 23<\/strong>: o <em>sinthoma<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2007.<\/h6>\n<h6>LAURENT, \u00c9. O avesso da biopol\u00edtica: uma escrita para o gozo. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2016.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Maria Antunes e Leonardo Miranda Na orienta\u00e7\u00e3o lacaniana, o corpo n\u00e3o se reduz a uma realidade biol\u00f3gica, mas constitui um efeito da incid\u00eancia da linguagem sobre o\u00a0corpo. 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