{"id":57916,"date":"2026-08-26T15:12:55","date_gmt":"2026-08-26T18:12:55","guid":{"rendered":"https:\/\/jornadasdaebprio.com.br\/2026\/?p=57916"},"modified":"2026-08-26T15:13:40","modified_gmt":"2026-08-26T18:13:40","slug":"girar-girar-e-perder-se-um-pouco","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jornadasdaebprio.com.br\/2026\/girar-girar-e-perder-se-um-pouco\/","title":{"rendered":"Girar, girar&#8230; e perder-se um pouco"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Luc\u00edola Mac\u00eado<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u201cN\u00e3o posso continuar, continuarei\u201d. <em>\u00a0<\/em><em>Samuel Becket, em O inomin\u00e1vel<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><strong>Prel\u00fadio<\/strong><\/p>\n<p>H\u00e1 mais de uma psican\u00e1lise na psican\u00e1lise.<\/p>\n<p>Da cren\u00e7a de que ler o sintoma e interpret\u00e1-lo tem efeito sobre ele (anular, dissolver, deslocar), ao sintoma \u201creduzido \u00e0 sua f\u00f3rmula inicial\u201d<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a> ao seu gr\u00e3o duro, quando o choque da linguagem com o corpo faz reverberar coisas. Algumas delas balbuciamos, outras arriscamos dizer, ou tentar escrever, outras escorrem por entres as letras, s\u00edlabas ou frases inteiras, escorrem, escorrem e escorrem\u2026 Entre esses dois movimentos, o que h\u00e1?<\/p>\n<p>O que h\u00e1 entre a inven\u00e7\u00e3o freudiana e o momento em que Lacan amplia o conceito de sintoma, ao mudar a sua grafia? Ao chamar de sinthoma, o incur\u00e1vel? Bem ali onde corpo e linguagem se conjugam para gozar?<\/p>\n<p>Freud deixou pedrinhas no caminho, Lacan, e tamb\u00e9m n\u00f3s, seguimos as suas pistas: o sintoma \u00e9 <em>Sinn<\/em> e <em>Bedeutung<\/em>, a refer\u00eancia indicando os caminhos e as fixa\u00e7\u00f5es da libido, os vest\u00edgios de gozo, onde isso se satisfaz, os seus circuitos e pontos de fixa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Freud era um leitor. Fez da leitura dos sonhos uma ci\u00eancia e por extens\u00e3o, passou a ler sintomas.\u00a0Lacan amou o seu alfabeto, e passou a\u00a0l\u00ea-lo a seu modo. Dos sintomas arriscou-se a ler os sulcos da plan\u00edcie siberiana, o voo de uma abelha, o alfabeto chin\u00eas, rodinhas de barbante, toros de tipos variados, parece que quase tudo pra Lacan virava alfabeto.<\/p>\n<p>Diante desse tema imenso, sigo as pegadas deixadas pelo instigante t\u00edtulo desta Jornada, vou pelo caminho das sutilezas. A psican\u00e1lise \u00e9 coisa sutil desde a sua origem, na lida com a outra cena, feita aos peda\u00e7os: de falas, pausas, sil\u00eancios. A cena que n\u00e3o se v\u00ea.<\/p>\n<p>Um caminho dentre os tantos, e vez ou outra uma clareira, nesse mot\u2019o cont\u00ednuo que \u00e9 a inven\u00e7\u00e3o da psican\u00e1lise, onde encontramos mais perguntas que respostas, mais paradoxos que verdades acabadas. \u00c9 dado \u00e0 experi\u00eancia anal\u00edtica extrapolar a pr\u00f3pria psican\u00e1lise.<\/p>\n<p>Em seu <em>work in progress,<\/em> Freud toma a si pr\u00f3prio como analisante: em \u201cAs sutilezas de um ato falho\u201d<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>, n\u00e3o sem Anna, a filha, encontramos uma li\u00e7\u00e3o sobre o que d\u00e9cadas mais tarde Lacan nomeia com um neologismo: a <em>varidade<\/em> do sintoma. Neste breve escrito Freud nos brinda com um testemunho da aten\u00e7\u00e3o \u00e0s forma\u00e7\u00f5es de seu pr\u00f3prio inconsciente. E de quebra nos ensina sobre as sutilezas de sua leitura, iluminando aspectos da verdade mentirosa em sua autoan\u00e1lise. Ele alude ami\u00fade \u00e0 presen\u00e7a discreta da psican\u00e1lise no mundo, \u00e0 sua sutil presen\u00e7a.<\/p>\n<p>Em um dos seus \u00faltimos semin\u00e1rios, o de n\u00famero 24, o sintoma aparece para Lacan disjunto da verdade: \u201co que o analisante diz, esperando se verificar, n\u00e3o \u00e9 a verdade, \u00e9 a <em>varidade<\/em> do sintoma\u201d.<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a> Ele n\u00e3o conhece a sua verdade. N\u00e3o pode diz\u00ea-la, nem acess\u00e1-la. Temos apenas o sintoma, a consistir, essa estranha montagem de gozo e linguagem e corpo e carne viva, que somos.<\/p>\n<p>As confer\u00eancias freudianas, mote deste encontro preparat\u00f3rio, s\u00e3o dos anos 1916-17. Estamos falando sobre elas em 2026, mais de cem anos ap\u00f3s proferidas por Freud. Entre n\u00f3s e sua publica\u00e7\u00e3o, temos a passagem do tempo. Temos o que se transforma e o que se deposita, as nuvens e o cristal. O anacronismo a nosso favor. Estamos relendo o texto freudiano uma vez mais, agregando a leitura de outros, em especial a leitura de Lacan e de Jacques-Alain Miller em seus semin\u00e1rios e cursos.<\/p>\n<p>Dito isso, comecemos pelas \u00e0s \u201cConfer\u00eancias freudianas sobre o sintoma<em>\u201d<\/em>, pelo que a leitura e releitura, entremeada por essa polifonia (Freud, Lacan, Miller, o argumento e os textos elaborados para a abertura da Jornada), me provocou.<\/p>\n<p>As perguntas que se esbo\u00e7aram pela primeira vez, e aquelas que se relan\u00e7am a partir dos interrogantes de Lacan em sua \u201cConfer\u00eancia em Genebra sobre o sintoma\u201d<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a> e em \u201cRumo a um significante novo\u201d<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a>. O aporte de Jacques-Alain Miller, no \u201cSemin\u00e1rio sobre os caminhos da forma\u00e7\u00e3o dos sintomas\u201d, vulgo, \u201cSemin\u00e1rio de Barcelona\u201d, e no curso <em>Sutilezas anal\u00edticas<\/em>, dois momentos em que retoma as confer\u00eancias freudianas sobre o sintoma, intercalados por um generoso intervalo de tempo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Ponto de partida<\/strong><\/p>\n<p>Por que voltar uma vez mais \u00e0s \u201cConfer\u00eancias introdut\u00f3rias\u201d, de 1917? Lucia D\u2019Angelo<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a> se pergunta, na abertura do Semin\u00e1rio de Barcelona, sobre as raz\u00f5es pelas quais Lacan havia pin\u00e7ado justo essas confer\u00eancias em 1975, em Genebra, \u00e0s v\u00e9speras da primeira li\u00e7\u00e3o do <em>Semin\u00e1rio 23, O Sinthoma<\/em>. Porque n\u00e3o recorreu a textos posteriores de Freud?<\/p>\n<p>Miller argumenta que apesar de parecer acidental, com as confer\u00eancias 17 e 23 \u00a0estamos em um lugar fundamental da obra de Freud e do ensino de Lacan. Nelas encontramos uma base \u201csimples, firme e evidente\u201d sobre a qual elocubrar: <strong>o sintoma, entre sentido e gozo<\/strong>. Nesse bin\u00f4mio \u201cse concentra a tem\u00e1tica central do ensino de Lacan\u201d.<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a><\/p>\n<p>Ainda que na <em>Confer\u00eancia de Genebra<\/em>, Lacan trilhe o <em>caminho<\/em> de uma maneira diferente daquela que em seu primeiro ensino tomou a forma de um vetor que vai do sentido ao gozo, e do sintoma ao fantasma \u2013\u2013 isso n\u00e3o o impediu de traz\u00ea-las novamente \u00e0 baila. Miller, adverte: \u201c&#8230; <em>ir de um ponto a outro n\u00e3o tem nenhuma afinidade com a dimens\u00e3o do inconsciente; apresentar o caminho do tratamento como o caminho de um ponto a outro parece for\u00e7ado\u201d<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\"><strong>[8]<\/strong><\/a>, <\/em>apesar de habitual. O que caminha \u00e9 a libido. Ela tem voca\u00e7\u00e3o para a err\u00e2ncia e o deslocamento, desliza, escorre por entre os dedos&#8230; e s\u00f3 \u00e0s vezes se fixa.<\/p>\n<p>Miller situou as bases e prop\u00f4s um m\u00e9todo, que adoto como tal, nesse novo giro sobre o sintoma a partir das confer\u00eancias freudianas: trata-se de construir uma \u201cplaca girat\u00f3ria\u201d que distribua e fa\u00e7a comunicar:\u00a0 <em>em primeiro lugar, as diferentes partes da obra de Freud; em segundo lugar, as constru\u00e7\u00f5es elaboradas no ensino de Lacan; e em terceiro lugar, a obra de Freud com a obra de Lacan<\/em>. Ou seja, um pequeno turbilh\u00e3o a nos orientar, mas tamb\u00e9m, a nos desorientar um pouco.<\/p>\n<p>Naquela ocasi\u00e3o, em Barcelona, o trabalho se inicia com uma pergunta: <strong>como sentido e gozo se articulam em psican\u00e1lise?<\/strong> A pergunta inicial \u00e9 escandida em cinco opera\u00e7\u00f5es, que n\u00e3o iremos retomar em detalhe agora, mas que lhes convido a percorrer atentamente com a leitura do Semin\u00e1rio de Barcelona: 1. Separar; 2. Articular; 3. Deduzir; 4. Produzir; 5. Enodar.<\/p>\n<p>Freud, como um Tir\u00e9sias da modernidade, apostou na possibilidade de decifrar o inconsciente, de explic\u00e1-lo por meio da interpreta\u00e7\u00e3o e do sentido dos sintomas. Ele constr\u00f3i magistralmente, para um p\u00fablico de n\u00e3o analistas, a sua \u201cIntrodu\u00e7\u00e3o \u00e0 psican\u00e1lise\u201d, contendo a psican\u00e1lise inteira: \u201ceu diria que todo o ensino de Lacan \u00e9 um coment\u00e1rio das confer\u00eancias 17 e 23 de Freud<em>\u201d<\/em> <a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\">[9]<\/a>, dir\u00e1 J.A.-Miller. \u00c0 parte certo exagero, reconhecido por ele pr\u00f3prio, a frase se justifica: primeiro, por elucidar o <em>caminho <\/em>que vai do sentido ao gozo do sintoma, a <em>via princeps <\/em>trilhada de diferentes maneiras, por Lacan em seu ensino; e depois, por ser um trabalho de divulga\u00e7\u00e3o, Freud se obriga a uma simplifica\u00e7\u00e3o e acelera\u00e7\u00e3o na exposi\u00e7\u00e3o te\u00f3rica, elucidando os fundamentos e encadeando a teoria, expondo o seu \u201cesqueleto\u201d de modo mais direto do que encontramos quando os temas s\u00e3o investigados separadamente, ou em profundidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Caminhos freudianos da forma\u00e7\u00e3o dos sintomas <\/strong><\/p>\n<p>Os caminhos delineados por Freud nas confer\u00eancias s\u00e3o, por um lado, caminhos de retorno da libido, entre desenvolvimento e regress\u00e3o. Por outro, rodeios, com as suas desfigura\u00e7\u00f5es e metamorfoses, em que a forma de satisfa\u00e7\u00e3o infantil, prim\u00e1ria, \u00e9 \u201c<em>deformada pela censura que surge no conflito, via de regra transformada em uma sensa\u00e7\u00e3o de sofrimento mesclada com elementos provenientes da causa precipitante da doen\u00e7a. O tipo de satisfa\u00e7\u00e3o que o sintoma consegue, tem em si, muitos aspectos estranhos ao sintoma<\/em>\u201d.<a href=\"#_ftn10\" name=\"_ftnref10\">[10]<\/a><\/p>\n<p>Para Freud, a libido regressa porque algo exerce uma atra\u00e7\u00e3o sobre ela. \u00c9 o que ele chama de fixa\u00e7\u00e3o. Desse vetor misterioso e oculto de atra\u00e7\u00e3o da libido, ele infere a estranheza do sintoma: n\u00e3o nos reconhecemos em nossos sintomas, \u201cexiste algo que faz com que os sintomas nos pare\u00e7am estranhos e incompreens\u00edveis como meio de satisfa\u00e7\u00e3o libidinal\u201d<a href=\"#_ftn11\" name=\"_ftnref11\">[11]<\/a>, ele diz. Seja por sua abje\u00e7\u00e3o, por seu absurdo, por sua bizarrice, por sua \u201cvoluptuosidade infame\u201d<a href=\"#_ftn12\" name=\"_ftnref12\">[12]<\/a>, dir\u00e1 Miller.<\/p>\n<p>Como todo criador, Freud abre caminho \u00e0 m\u00faltiplas leituras. Lacan as recolhe, em seus retornos a Freud, e em fecundos di\u00e1logos com os p\u00f3s-freudianos, ao longo dos seus <em>Semin\u00e1rios<\/em>. Lacan formaliza a sua obje\u00e7\u00e3o \u00e0 perspectiva desenvolvimentista e maturacional: postula n\u00e3o o desenvolvimento da libido, mas uma gram\u00e1tica das puls\u00f5es.\u00a0 \u201cO fantasma \u00e9 estruturado como uma linguagem\u201d, chegar\u00e1 a afirmar.<a href=\"#_ftn13\" name=\"_ftnref13\">[13]<\/a> O corpo \u00e9 recortado pelo significante, contundido pelas reverbera\u00e7\u00f5es da fala, assaltado pelas intrus\u00f5es do parasita falador: \u201c<em>A fala, com efeito, \u00e9 um dom de linguagem, e a linguagem n\u00e3o \u00e9 imaterial. \u00c9 um corpo sutil, mas \u00e9 corpo. As palavras s\u00e3o tiradas de todas as imagens corporais que cativam o sujeito; podem engravidar a hist\u00e9rica, identificar-se com o objeto do penisneid, representar a torrente de urina da ambi\u00e7\u00e3o uretral, ou o excremento retido do gozo avarento. Mais ainda, as pr\u00f3prias palavras podem sofrer les\u00f5es simb\u00f3licas, realizar os atos imagin\u00e1rios dos quais o paciente \u00e9 o sujeito<\/em>\u201d.<a href=\"#_ftn14\" name=\"_ftnref14\">[14]<\/a> <strong>A fala \u00e9 corpo<\/strong>. H\u00e1 neste pequeno fragmento todo um programa de investiga\u00e7\u00e3o, do qual a Jornada cl\u00ednica certamente extrair\u00e1 as consequ\u00eancias.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Mais um giro: um \u201csintoma artificial\u201d<\/strong><\/p>\n<p>Com sua costumeira agudeza, Freud discorre sobre os caminhos da forma\u00e7\u00e3o dos sintomas, no plural. H\u00e1 o caminho dos sintomas neur\u00f3ticos, que s\u00e3o resultantes de um conflito, e surgem em virtude de um novo modo de satisfazer a libido, pela reconcilia\u00e7\u00e3o, no sintoma, de for\u00e7as conflitantes: \u201cassim o sintoma emerge como um derivado m\u00faltiplas vezes distorcido da realiza\u00e7\u00e3o de desejo libidinal inconsciente, uma pe\u00e7a de ambiguidade engenhosamente escolhida, com dois significados em completa contradi\u00e7\u00e3o m\u00fatua\u201d.<a href=\"#_ftn15\" name=\"_ftnref15\">[15]<\/a> J\u00e1 \u201co caminho que leva \u00e0 pervers\u00e3o, se destaca nitidamente daquele que leva \u00e0 neurose\u201d, pois se n\u00e3o h\u00e1 conflito, n\u00e3o haver\u00e1 neurose, chegando a libido \u201ca alguma satisfa\u00e7\u00e3o real, embora n\u00e3o mais uma satisfa\u00e7\u00e3o normal\u201d.<a href=\"#_ftn16\" name=\"_ftnref16\">[16]<\/a><\/p>\n<p>Antes de concluir a confer\u00eancia 23, Freud chama a aten\u00e7\u00e3o para \u201cum aspecto da vida de fantasia que merece o mais amplo interesse\u201d. H\u00e1 um caminho \u201cque conduz a fantasia de volta para a realidade\u201d<a href=\"#_ftn17\" name=\"_ftnref17\">[17]<\/a>, o caminho da arte. Junto a isto, ele amplia o horizonte da realidade com a postula\u00e7\u00e3o da realidade ps\u00edquica, ao ponto de fazer desvanecer a diferen\u00e7a entre a realidade externa e realidade ps\u00edquica: \u201clevar\u00e1 um bom tempo at\u00e9 poder assimilar-se a nossa proposi\u00e7\u00e3o de que podemos igualar fantasia e realidade\u201d [&#8230;] \u201cas fantasias possuem realidade ps\u00edquica, em contraste com a realidade material, e gradualmente aprendemos a entender que, no mundo das neuroses, a realidade ps\u00edquica \u00e9 a realidade decisiva\u201d.<a href=\"#_ftn18\" name=\"_ftnref18\">[18]<\/a><\/p>\n<p>\u00c9 no objeto de arte onde essa equival\u00eancia se expressa de maneira mais pungente: o artista \u201csabe como dar forma aos seus devaneios de tal modo que estes perdem aquilo que neles \u00e9 excessivamente pessoal, possibilitando que outros compartilhem o prazer com eles obtidos\u201d.<a href=\"#_ftn19\" name=\"_ftnref19\">[19]<\/a><\/p>\n<p>Lacan radicaliza essa proposi\u00e7\u00e3o ao dizer que somente gozamos de nossos fantasmas. Com Lacan<a href=\"#_ftn20\" name=\"_ftnref20\">[20]<\/a>, esses caminhos, o do sintoma, da arte e da pervers\u00e3o, j\u00e1 n\u00e3o ser\u00e3o caminhos paralelos ou opostos. Podem estar em continuidade, podem se cruzar, se sobrepor, se confundir. As opera\u00e7\u00f5es com a libido e o objeto de arte se ampliam e se complexificam, at\u00e9 que ele formule um conceito para dar conta dessa amplia\u00e7\u00e3o, o sinthoma, a partir da vida e da obra de um artista, James Joyce.<\/p>\n<p>Muito antes de sua imers\u00e3o-Joyce, Lacan j\u00e1 se debru\u00e7ava sobre os efeitos liter\u00e1rios em Gide, e antes ainda, no caso Aim\u00e9e: h\u00e1 situa\u00e7\u00f5es que, no limite, no ponto onde n\u00e3o h\u00e1 retorno, por um efeito de invers\u00e3o, o chamado envolt\u00f3rio formal do sintoma (o <em>Sinn<\/em> do sintoma, nos termos de Freud) se reverte em efeitos de cria\u00e7\u00e3o.<a href=\"#_ftn21\" name=\"_ftnref21\">[21]<\/a> Ou como dir\u00e1 Miller no Semin\u00e1rio de Barcelona, \u201cde certo modo, a arte n\u00e3o \u00e9 diferente do sintoma\u201d e sua feitura \u201cseria algo como a cria\u00e7\u00e3o de um sintoma artificial\u201d.<a href=\"#_ftn22\" name=\"_ftnref22\">[22]<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Caminhos d\u2019arte: Hamlet, o caso<\/strong><\/p>\n<p>O tema da cria\u00e7\u00e3o art\u00edstica como sintoma artificial levou-me a algumas elocubra\u00e7\u00f5es sobre o <em>Hamlet <\/em>de Shakespeare, essa obra inesgot\u00e1vel, tantas vezes traduzida, encenada, lida e comentada e sobre a qual tantos psicanalistas j\u00e1 se debru\u00e7aram. Freud estava advertido de que a intui\u00e7\u00e3o dos artistas e o labor dos poetas, continham e antecipavam as descobertas da jovem \u201cci\u00eancia psicanal\u00edtica\u201d.<\/p>\n<p>O que faz de Hamlet faz dele um personagem moderno? De onde vem o misterioso fasc\u00ednio que provoca no leitor?<\/p>\n<p>Lendo as confer\u00eancias freudianas e fazendo-as girar com as \u201cSete li\u00e7\u00f5es sobre Hamlet, de Lacan\u201d<a href=\"#_ftn23\" name=\"_ftnref23\">[23]<\/a>, me ocorreu que esse fasc\u00ednio inesgot\u00e1vel por uma obra como Hamlet talvez seja, para al\u00e9m da habilidade do poeta e do dom\u00ednio formal da t\u00e9cnica, um efeito somente fact\u00edvel nos sintomas artificiais. Um efeito decorrente justamente do artif\u00edcio: encontramos em Hamlet, engenhosamente intrincadas, os diferentes tipos de defesa frente ao real, a defesa neur\u00f3tica, a defesa psic\u00f3tica e tamb\u00e9m a defesa perversa, simultaneamente. Shakespeare re\u00fane e orquestra magistralmente, num \u00fanico personagem, arranjos e injun\u00e7\u00f5es, pr\u00f3prias \u00e0s tr\u00eas estruturas cl\u00ednicas \u2013 neurose, psicose e pervers\u00e3o. Uma montagem assim somente seria poss\u00edvel no objeto de arte como artif\u00edcio.<\/p>\n<p>Lemos o Hamlet neur\u00f3tico diante do enigma do desejo da m\u00e3e, na procrastina\u00e7\u00e3o, na agressividade no la\u00e7o com Of\u00e9lia, ou no fingir de louco. No homem paralisado diante da culpa.<\/p>\n<p>Na virada do s\u00e9culo j\u00e1 se anunciava uma sucess\u00e3o, n\u00e3o havia herdeiros, ali se encerrou a dinastia Tudor. Os preceitos crist\u00e3os, ainda muito presentes no imagin\u00e1rio popular, deveriam ser banidos e substitu\u00eddos pela nova e ainda germinal doutrina protestante. Nesse entre mundos, entre reinos e eras, ganha todo o alcance o coment\u00e1rio de Lacan em suas li\u00e7\u00f5es sobre Hamlet: \u201c\u00c9 bem disso que parecemos ter perdido a refer\u00eancia. J\u00e1 n\u00e3o sabemos articular essas palavras que podem estar entre o objetivo e o subjetivo, estar em jogo ao mesmo tempo no centro do vivido do sujeito e no n\u00edvel da ordem do mundo\u201d.<a href=\"#_ftn24\" name=\"_ftnref24\">[24]<\/a><\/p>\n<p>Lacan diz sobre Hamlet: \u201co luto lhe provoca um buraco no real\u201d e \u00e9 nisso \u201cque ele se parece com a psicose\u201d: <em>se do lado do morto n\u00e3o se cumpriu algo designado como ritos, surgem apari\u00e7\u00f5es singulares [&#8230;] se algo da satisfa\u00e7\u00e3o devida ao morto fica faltando, \u00e9 elidido ou recusado, se produzem todos os fen\u00f4menos decorrentes do acionamento da influ\u00eancia, dos fantasmas e das larvas no lugar deixado livre pela aus\u00eancia do rito significante. O trabalho de luto apresenta-se como uma satisfa\u00e7\u00e3o dada \u00e0 desordem que se produz em raz\u00e3o da insufici\u00eancia de todos os significantes em fazer frente ao buraco criado na exist\u00eancia<\/em>. Sabemos o quanto a apari\u00e7\u00e3o dos mortos \u2013 na aus\u00eancia dos ritos, do conhecimento das circunst\u00e2ncias da morte ou da realidade material da sepultura \u2013 sabemos o quanto este n\u00e3o \u00e9 um tema apenas lateral \u00e0 vida, \u00e0 arte ou a religi\u00e3o, mas consubstancial a elas.<\/p>\n<p>H\u00e1 distintas colora\u00e7\u00f5es e tonalidades, modula\u00e7\u00f5es e declina\u00e7\u00f5es do fantasma do pai ao longo da pe\u00e7a, que valeria, em um estudo mais acurado, distinguir. No primeiro di\u00e1logo com o fantasma do pai, ressurgindo das profundezas da terra, brotando da lama, ele retorna ao mundo dos vivos para contar a sua hist\u00f3ria, a de um assassinato, fora morto pela m\u00e3o do pr\u00f3prio irm\u00e3o tendo a esposa como c\u00famplice. Esse di\u00e1logo antecede a c\u00e9lebre passagem \u201cH\u00e1 mais coisas no c\u00e9u e na terra, Hor\u00e1cio\/ Do que pode sonhar a tua filosofia\u201d.<a href=\"#_ftn25\" name=\"_ftnref25\">[25]<\/a> <em>Hamlet<\/em> \u201c\u00e9 uma trag\u00e9dia do mundo subterr\u00e2neo e o <em>ghost<\/em> surge de uma ofensa inexpi\u00e1vel\u201d.<a href=\"#_ftn26\" name=\"_ftnref26\">[26]<\/a><\/p>\n<p>Ao final da pe\u00e7a, desdobra-se uma montagem afeita \u00e0 engenharia da pervers\u00e3o: acompanhamos um frenesi que tem in\u00edcio com a pantomima, segue com a pe\u00e7a dentro da pe\u00e7a, e se encerra com o <em>grand finale<\/em>: a morte de todos os envolvidos. Todos mortos menos um. Na \u00faltima cena do \u00faltimo ato, j\u00e1 ferido de morte, Hamlet apela ao amigo, que amea\u00e7a beber o resto do veneno sorvido pela rainha, que n\u00e3o atente contra a sua pr\u00f3pria vida:<\/p>\n<p>&#8211; Hamlet: \u201c<em>Eu estou morto, Hor\u00e1cio, e tu est\u00e1s vivo. D\u00e1 parte a meu respeito e sobre a minha causa. Aos que n\u00e3o a conhe\u00e7am.<\/em> &#8211; Hor\u00e1cio: <em>n\u00e3o conte com isso. Sou muito mais romano que dinamarqu\u00eas. Ainda h\u00e1 um resto aqui<\/em>. &#8211; Hamlet: <em>Se tu \u00e9s mesmo um homem, passa este copo. Larga, pelos c\u00e9us, me d\u00e1&#8230; E neste mundo duro arqueja mais um pouco, \/ pra contar minha hist\u00f3ria<\/em><em> &#8230;N\u00e3o vou viver para ouvir as not\u00edcias da Inglaterra\/ Mas predigo que a escolha ir\u00e1 a Fortimbr\u00e1s\/ Meu voto agonizante recai sobre ele\/ Conte-lhe tudo e os fatos, grandes e pequenos\/ Que terminaram aqui. E o resto \u00e9 s\u00f3 sil\u00eancio\u201d<a href=\"#_ftn27\" name=\"_ftnref27\"><strong>[27]<\/strong><\/a>.<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Rodopios<\/strong><\/p>\n<p>H\u00e1 uma sutileza cl\u00ednica, indicada por Miller na \u00faltima li\u00e7\u00e3o de <em>Sutilezas anal\u00edticas<\/em>, que aponta a esse floril\u00e9gio de arranjos e solu\u00e7\u00f5es em que a arte imita a vida, agregando o engenho e o artif\u00edcio, ao caso. Ele diz: \u201cSe seguimos o modelo da pervers\u00e3o, n\u00e3o se passa pelo fantasma\u201d<a href=\"#_ftn28\" name=\"_ftnref28\">[28]<\/a> .<\/p>\n<p>Sigamos suas pistas, tal como aborda a quest\u00e3o, a partir do \u00faltimo ensino de Lacan:<\/p>\n<ol>\n<li>O gozo n\u00e3o \u00e9 transgress\u00e3o.<\/li>\n<li>Do ponto de vista do gozo, a diferen\u00e7a entre pervers\u00e3o e histeria n\u00e3o \u00e9 essencial.<a href=\"#_ftn29\" name=\"_ftnref29\">[29]<\/a> Na pervers\u00e3o, a substitui\u00e7\u00e3o \u00e9 direta, se mostra plenamente e \u00e9 consciente: o sujeito sabe o que busca, conhece a a\u00e7\u00e3o que lhe faz falta, o objeto que lhe serve para gozar. Na histeria, a substitui\u00e7\u00e3o \u00e9 inconsciente, passando pelo desvio da interpreta\u00e7\u00e3o do sintoma. Ou seja, em ambas as formas cl\u00ednicas h\u00e1 o gozo substitutivo, com a diferen\u00e7a que na pervers\u00e3o esse mecanismo \u00e9 consciente, e na histeria, inconsciente. O que na neurose se mostra confusamente, camuflado pelos labirintos do desejo como defesa frente o gozo (sendo justo a\u00ed onde opera a interpreta\u00e7\u00e3o), na pervers\u00e3o se evidencia como um funcionamento similar ao sinthome<a href=\"#_ftn30\" name=\"_ftnref30\">[30]<\/a>, um dispositivo onde corpo e linguagem se conjugam para produzir gozo sem passar pelo conflito ou pela negativa\u00e7\u00e3o pelo significante.<\/li>\n<li>A pervers\u00e3o foi para Freud, e tamb\u00e9m para Lacan, uma refer\u00eancia, um indicador. Para Freud ela se evidencia por uma abje\u00e7\u00e3o \u00e0 qual seria inevit\u00e1vel entregar-se, e que hoje chamamos de adi\u00e7\u00e3o<a href=\"#_ftn31\" name=\"_ftnref31\">[31]<\/a>. J\u00e1 para Lacan, a pervers\u00e3o lhe d\u00e1 o modelo do abjeto a. Mas o gozo j\u00e1 n\u00e3o se encontra nele aprisionado. E ele se estende por onde houver significante.<\/li>\n<\/ol>\n<p>4) Eis onde Lacan se diferencia de Freud, que pensa a libido suscet\u00edvel de uma energ\u00e9tica. Para Lacan o gozo n\u00e3o produz energia. Ele \u00e9 consubstancial ao significante.<\/p>\n<p>5) Donde, conclui: \u201cN\u00e3o h\u00e1 atravessamento do fantasma\u201d. Para \u201cum parl\u00eatre que j\u00e1 n\u00e3o estaria atormentado pela verdade, o final de an\u00e1lise \u00e9, ele mesmo, contingente\u201d <a href=\"#_ftn32\" name=\"_ftnref32\">[32]<\/a>.<\/p>\n<p><strong>O que exerce atra\u00e7\u00e3o sobre a libido \u00e9 traum\u00e1tico ou fantasm\u00e1tico?<a href=\"#_ftn33\" name=\"_ftnref33\">[33]<\/a><\/strong><\/p>\n<p>H\u00e1 uma quest\u00e3o que Freud n\u00e3o chegou a desenvolver, apesar de figurar nas entrelinhas da teoria, e que Lacan formula e conceitualiza. Para Lacan o traum\u00e1tico n\u00e3o se explica por pelo excesso de libido que retorna a um est\u00e1gio de desenvolvimento anterior, como queria Freud, com sua energ\u00e9tica apoiada na teoria da evolu\u00e7\u00e3o da libido, onde as \u00a0puls\u00f5es parciais est\u00e3o subordinadas ao primado genital e a sexualidade obedece ao programa biol\u00f3gico.<\/p>\n<p>No \u201cSemin\u00e1rio der Barcelona\u201d, Miller observa que o campo sem\u00e2ntico e o campo libidinal, o circuito da palavra e o circuito da libido, parecem operar, nas confer\u00eancias freudianas, como sistemas paralelos, e n\u00e3o como componentes de um mesmo sistema. A consequ\u00eancia disso \u00e9 que Freud acaba por oscilar entre a realidade externa e a realidade ps\u00edquica ao inv\u00e9s de enodar o fator traum\u00e1tico e o fator fantasm\u00e1tico.<\/p>\n<p>O dualismo \u2018\u00e9 isto ou aquilo\u2019 (ou \u00e9 traum\u00e1tico, ou \u00e9 fantasm\u00e1tico) se desfaz ao longo do ensino de Lacan. O fantasm\u00e1tico \u00e9 traum\u00e1tico. E o traum\u00e1tico tem seu componente fantasm\u00e1tico, porque o trauma, a linguagem e o real formam uma tr\u00edade, eles se enodam e constituem a realidade ps\u00edquica em si mesma.<\/p>\n<p>O ponto de desacordo de Lacan em rela\u00e7\u00e3o a Freud mencionado na \u201cConfer\u00eancia de Genebra\u201d \u00e9 o autoerotismo: na teoria da libido freudiana esse seria o ponto zero da cadeia maturacional, cujo \u00e1pice seria a realiza\u00e7\u00e3o genital: \u201c<em>Freud insistiu muito sobre isso. E ele acreditou poder enfatizar o termo autoerotismo tendo em vista que essa realidade sexual a crian\u00e7a a descobre, inicialmente, em seu pr\u00f3prio corpo. Permito-me &#8230; \u00a0n\u00e3o estar de acordo \u2013 e isso em nome da obra do pr\u00f3prio Freud&#8230; em certos seres (<\/em>\u00e0 prop\u00f3sito do caso do pequeno Hans<em>), o encontro com a pr\u00f3pria ere\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 absolutamente autoer\u00f3tico. \u00c9 o que h\u00e1 de mais h\u00e9tero\u201d<\/em> [&#8230;]<em>.<\/em> \u201c<em>Este gozo desconhecido que est\u00e1 no princ\u00edpio de sua fobia transposto para um<\/em> <em>objeto externo, o cavalo, do qual seu sintoma \u00e9 a significa\u00e7\u00e3o, nos mostra o quanto o significante est\u00e1 encarnado na linguagem. Sua recusa n\u00e3o merece ser \u201ctachada como autoerotismo\u201d <a href=\"#_ftn34\" name=\"_ftnref34\"><strong>[34]<\/strong><\/a>.<\/em><\/p>\n<p>Lacan \u00e9 enf\u00e1tico: a libido \u00e9 uma quest\u00e3o de linguagem. A defini\u00e7\u00e3o de inconsciente incide no conceito de sintoma, quer esteja referida, como em Freud, \u00e0 consci\u00eancia e \u00e0 din\u00e2mica do conflito; quer se desloque, com Lacan, para a sua estrutura de linguagem, e desta a um h\u00edbrido de linguagem e gozo. Para Lacan \u00e9 da captura do ser humano na linguagem de onde se deduz o car\u00e1ter parcial das puls\u00f5es, diferentemente de Freud, que parecia considerar o fator pulsional como um fen\u00f4meno aut\u00f4nomo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 linguagem.<\/p>\n<p>Freud deixou todas as pistas para que Lacan formulasse os circuitos da palavra e os circuitos da libido como um s\u00f3 sistema, ao inv\u00e9s de dois sistemas distintos, integrando a libido\u00a0 \u00e0 estrutura de linguagem. Com Lacan, a interpreta\u00e7\u00e3o j\u00e1 n\u00e3o se alinha apenas \u00e0 decifra\u00e7\u00e3o do sentido dos sintomas, mas ao fantasma como uma frase que condensa o gozo, uma mensagem cifrada que, mais que decifrar, \u00e9 preciso construir em an\u00e1lise. Assim, a interpreta\u00e7\u00e3o deixa de ser estratificada e tida como separada do inconsciente. O inconsciente interpreta.<\/p>\n<p>O problema: Como demonstrar que, na neurose, o real em jogo no sintoma passa pelo fantasma? Um paradoxo: O sintoma, para Lacan, \u00e9 da ordem do real. Se o sintoma traz em sua forma\u00e7\u00e3o algo do sentido, como pode ser tamb\u00e9m da ordem do real, se o real n\u00e3o tem nenhuma esp\u00e9cie de sentido?<a href=\"#_ftn35\" name=\"_ftnref35\">[35]<\/a>\u00a0 Uma \u201csolu\u00e7\u00e3o\u201d: o sintoma \u00e9 o \u00fanico tro\u00e7o de real com um sentido.<\/p>\n<p>Mas o sentido aqui \u00e9 obtido por uma manipula\u00e7\u00e3o do significante que, por seu efeito de resson\u00e2ncia, e de furo, est\u00e1 \u201c<em>suportado pelo real<\/em>\u201d.<a href=\"#_ftn36\" name=\"_ftnref36\">[36]<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Poesia<\/strong><\/p>\n<p>\u201c<em>Somente a poesia permite a interpreta\u00e7\u00e3o<\/em>\u201d.<a href=\"#_ftn37\" name=\"_ftnref37\">[37]<\/a><\/p>\n<p><em>\u201cEsse cancro que \u00e9 a linguagem implica, desde o in\u00edcio, uma esp\u00e9cie de \u00a0sensibilidade<\/em>\u201d.<a href=\"#_ftn38\" name=\"_ftnref38\">[38]<\/a><\/p>\n<p>Este e outros paradoxos levaram Lacan, em seu \u00faltimo ensino, \u00e0 poesia. Na poesia o sentido des\u00e1gua no sem sentido, consoando com o inconsciente. Ao operar com a equivocidade da l\u00edngua, o analista, assim como o poeta, faz <em>soar outra coisa: o pr\u00f3prio da poesia&#8230; \u00e9 ser puro n\u00f3 de uma palavra com outra palavra&#8230; Como o poeta pode realizar este for\u00e7amento, de fazer com que um sentido esteja ausente? Substituindo-o, esse sentido ausente, pela significa\u00e7\u00e3o. A significa\u00e7\u00e3o&#8230; \u00e9 uma palavra vazia<\/em>\u201d.<a href=\"#_ftn39\" name=\"_ftnref39\">[39]<\/a><\/p>\n<p>Ele recorre \u00e0 poesia e ao efeito po\u00e9tico, \u00e0 duplicidade de sentido, ao equ\u00edvoco a que essa duplicidade se abre ao perturbar o uso corrente da l\u00edngua, como outro modo de jogar com o sentido. Ao manipular o significante, a poesia o for\u00e7a, o extrapola, o desarranja, operando com o sentido desencadeado, esse do qual lal\u00edngua \u00e9 feita.<\/p>\n<p>Sobre esse ponto, lembrei-me de algo que ouvi recentemente, uma fala de Mia Couto, em entrevista ao Podcast \u201cO poema ensina a cair\u201d, em que ele se lan\u00e7a num aparente paradoxo, dizendo que algo t\u00e3o infirme como a poesia, <em>\u00e9 seu ch\u00e3o:<\/em> <em>n<\/em><em>o in\u00edcio da inf\u00e2ncia somos todos poetas, a poesia \u00e9 uma sensibilidade, uma forma de perder a fronteira<\/em>.\u00a0<em>Somos poetas quando come\u00e7amos a falar<\/em>. Dir\u00edamos: somos poetas quando come\u00e7amos a falar por estarmos ainda suficientemente imersos em lalingua, e \u00e0 medida em que desenvolvemos a linguagem perdemos essa conex\u00e3o\u00a0primeira. Acaso n\u00e3o seria o fort-da uma li\u00e7\u00e3o sobre lal\u00edngua?<\/p>\n<p>N\u00e3o foi \u00e0 toa que esse epis\u00f3dio me veio \u00e0 mente enquanto escrevia as notas para a nossa conversa. Mia parece dialogar com Freud e Roman Rolland no primeiro cap\u00edtulo de \u201cO mal estar da civiliza\u00e7\u00e3o\u201d<a href=\"#_ftn40\" name=\"_ftnref40\">[40]<\/a>. Ele parece evocar o \u201csentimento oce\u00e2nico\u201d, termo da lavra de Rolland, pra dizer desse ch\u00e3o que a poesia \u00e9 para ele, em rela\u00e7\u00e3o a qualquer movimento de escrita, seja romance, ensaio, ou qualquer outro.<\/p>\n<p>Relembrando onde e quando isso come\u00e7ou, ele relata um passeio com o pai quando era crian\u00e7a, a um parque perto de sua cidade natal, na <em>Beira<\/em>, em Mo\u00e7ambique. Ele descreve durante o passeio, o encontro com uma \u201c<em>paisagem daquelas em que parece que o mundo est\u00e1 a nascer naquele momento&#8230; o rio imenso e aquela extens\u00e3o da savana com animais\u201d<\/em>. O pai lhe pergunta se estava gostando e ele n\u00e3o sabia responder: <em>\u201cde repente perdi qualquer linguagem, n\u00e3o sabia&#8230;\u201d<\/em>. S\u00f3 mais tarde percebeu o que havia lhe acontecido naquele momento: <em>\u201csenti-me pequenino, n\u00e3o tinha tamanho, n\u00e3o tinha dimens\u00e3o, mas tinha um tamanho infinito porque fazia parte daquilo, eu de repente dissolvi-me\u201d [&#8230;] \u201cde repente a gente perde a nossa pr\u00f3pria fronteira, a nossa pele, a nossa identidade, de repente somos aquela coisa\u201d [&#8230;] \u201ceu n\u00e3o tenho medo de me dissolver, de me perder, de deixar de existir\u201d [&#8230;] \u201c de me dissolver numa outra pessoa, numa cidade, num momento\u201d[&#8230;], \u201ceu de repente sinto que s\u00f3 perdido, come\u00e7o primeiro por me perder a mim pr\u00f3prio, eu encontro a possibilidade de me fundir, dessa coisa tomar posse de mim, seja a beleza, a paisagem ou outra pessoa\u201d.<\/em> Ele diz que a partir daquele momento passou a experimentar a dissolu\u00e7\u00e3o, esse estado moment\u00e2neo e contingente, como algo consubstancial ao seu of\u00edcio.<\/p>\n<p>Mia descreve algo muito pr\u00f3ximo do que Freud evocou, e que tanto o instigou em seu di\u00e1logo epistolar com Rolland (que se estendeu por mais de uma d\u00e9cada, at\u00e9 os \u00faltimos anos de sua vida em Londres), ao ponto de dedicar ao amigo, em homenagem ao seu septuag\u00e9simo anivers\u00e1rio, uma carta aberta e um testemunho \u00edntimo, o comovente \u201cUm dist\u00farbio de mem\u00f3ria na Acr\u00f3pole\u201d<a href=\"#_ftn41\" name=\"_ftnref41\">[41]<\/a>.<\/p>\n<p>O que Freud via com reserva, como reativa\u00e7\u00e3o de uma experi\u00eancia ps\u00edquica arcaica, uterina, ind\u00edcio de uma regress\u00e3o ao narcisismo prim\u00e1rio; o que percebia como um perigo, aquele do desabamento das fronteiras entre o eu e o isso, \u00e9 para Mia litoral, uma experi\u00eancia que o conecta com a escrita, at\u00e9 o limite, esse \u201cde repente perdi qualquer linguagem\u201d, \u00e0 <em>beira<\/em> do real.<\/p>\n<p>Para Freud, no lugar do sentimento oce\u00e2nico como fonte das necessidades religiosas, est\u00e1 o desamparo do beb\u00ea e o anseio pelo pai: \u201cN\u00e3o consigo pensar em nenhuma necessidade da inf\u00e2ncia t\u00e3o intensa quanto a da prote\u00e7\u00e3o de um pai\u201d.<a href=\"#_ftn42\" name=\"_ftnref42\">[42]<\/a><\/p>\n<p>\u00c9 curioso que Freud tenha escolhido encerrar o cap\u00edtulo do \u201csentimento oce\u00e2nico\u201d evocando a balada \u201cO mergulhador\u201d, de Schiller, em que o mergulho enseja um destino tr\u00e1gico e mortal: \u201cConhece a felicidade\/ Quem respira nessa r\u00f3sea claridade! \/ L\u00e1 embaixo s\u00f3 existe a temeridade\u201d, (na tradu\u00e7\u00e3o de Andr\u00e9 Carone).<\/p>\n<p>Talvez, para ler Mia, nos sirva menos a met\u00e1fora freudiana das ru\u00ednas soterradas de Roma, que a de Lacan, do inconsciente como \u201cum pequeno barco\u201d. Talvez Freud tenha distra\u00eddo em alguma medida o guardi\u00e3o do templo paterno, em seu caminho, por terra, de Roma \u00e0 Acr\u00f3pole. Talvez alguma diferen\u00e7a seja preciso atribuir \u00e0 experi\u00eancia de dissolu\u00e7\u00e3o como acontecimento, quando n\u00e3o se est\u00e1 imerso nela de uma vez por todas. Do mesmo modo, uma coisa \u00e9 uma sensibilidade \u00e0 lal\u00edngua tendo j\u00e1 se constitu\u00eddo a linguagem, outra, \u00e9 o seu puro manancial.<\/p>\n<p>Uma pequena embarca\u00e7\u00e3o se ergue como fala na sess\u00e3o anal\u00edtica. O trabalho anal\u00edtico, no plano do inconsciente estruturado como uma linguagem, suas manifesta\u00e7\u00f5es cifradas, prenhes de sentido e gozo, n\u00e3o existem \u00e0 revelia de lal\u00edngua: como o leito do rio e a correnteza que move as \u00e1guas, sem que esta seja percebida como tal, do lado de fora, pelo banhista que ir\u00e1 se enredar nas \u00e1guas da linguagem, ao adentrar o dispositivo anal\u00edtico.<\/p>\n<p>Em Genebra, Lacan aproxima certo uso da linguagem dos verbos <em>impregnar, instilar&#8230; <\/em>Impregnar-se, \u00e9 um modo de estar na linguagem muito diferente do fazer sentido, fazer par. De um fazer qualquer. \u00c9 um modo de afetar-se pela linguagem, o corpo estando metido nisso de cabo a rabo<em>: \u00e9 no encontro das palavras com o corpo que alguma coisa se esbo\u00e7a. O significante \u00e9 algo que est\u00e1 encarnado na linguagem. Significa\u00e7\u00e3o \u00e9 diferente de Sinn, do efeito de sentido, e designa a rela\u00e7\u00e3o ao real.<a href=\"#_ftn43\" name=\"_ftnref43\"><strong>[43]<\/strong><\/a> <\/em><\/p>\n<p>O que a lala\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as teria a ver com a coalesc\u00eancia entre a realidade sexual e a linguagem? Lacan \u00e9 certeiro: h\u00e1 as coisas que se prestam \u00e0 \u201c<em>generaliza\u00e7\u00e3o faloc\u00eantrica<\/em>\u201d, e as que n\u00e3o se prestam a ela.\u00a0 A realidade sexual se especifica pelo fato de n\u00e3o haver entre macho e f\u00eamea nenhuma rela\u00e7\u00e3o instintiva. Isto diz mais sobre o consoar ou n\u00e3o consoar entre inconscientes<em>. <\/em>Sobre a <em>coalesc\u00eancia entre realidade sexual e linguagem.<a href=\"#_ftn44\" name=\"_ftnref44\"><strong>[44]<\/strong><\/a><\/em><\/p>\n<p>Qui\u00e7\u00e1 com lal\u00edngua e o outro gozo encontremos, com Lacan, algum esteio conceitual para alguma aproxima\u00e7\u00e3o entre o imagin\u00e1rio judaico crist\u00e3o que permeia a leitura de Freud sobre o \u201csentimento oce\u00e2nico\u201d (as ideias de culpa, castigo, pecado, perd\u00e3o, reden\u00e7\u00e3o,\u00a0 transcend\u00eancia, salva\u00e7\u00e3o), e a experi\u00eancia de poetas que recorrem \u00e0s experi\u00eancias de dissolu\u00e7\u00e3o como fulcro, torrente ou fonte para a escrita; ou ainda, permita alguma aproxima\u00e7\u00e3o \u00e0s cosmogonias de matriz africana, instiladas na escrita de Mia, ou as que nos chegam dos povos origin\u00e1rios, com Kopenawa, e aos polite\u00edsmos de diferentes matizes, com seus tantos arranjos entre linguagem e libido, sintoma e gozo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Sutilezas, enfim..,<\/strong><\/p>\n<p>Desconfio que o mist\u00e9rio do corpo falante, quando tentamos compreend\u00ea-lo, \u00e9 algo mais pr\u00f3ximo \u201cdo encontro fortuito entre um guarda-chuva e uma m\u00e1quina de costura sobre uma mesa de dissec\u00e7\u00e3o\u201d<a href=\"#_ftn45\" name=\"_ftnref45\">[45]<\/a>, que de um \u201cisso j\u00e1 estava ali\u201d.<\/p>\n<p>Gosto da ideia de n\u00e3o obturar a abertura ao mist\u00e9rio, este do qual se nutre a literatura e os mundos inc\u00f3gnitos que <em>ex-sistem<\/em> entre a ontog\u00eanese, a filog\u00eanese, as gera\u00e7\u00f5es e a linguagem. Gosto da ideia de dar ares pro real.<\/p>\n<p>Gosto de ler o sintoma como se l\u00ea poesia. Aqui se mobilizam as migalhas de sentidos, as flutua\u00e7\u00f5es, os ru\u00eddos, os equ\u00edvocos, a polifonia, as pausas, o corte, os detritos. O poema estando para Lacan, como o romance est\u00e1 para Freud.<\/p>\n<p>O \u00faltimo Lacan, <em>poata assaz<\/em>, o das \u201cestradas que d\u00e3o em lugar algum\u201d<a href=\"#_ftn46\" name=\"_ftnref46\">[46]<\/a>, me leva a pensar o final de an\u00e1lise como uma fic\u00e7\u00e3o operativa, <em>fix\u00e3o<a href=\"#_ftn47\" name=\"_ftnref47\"><strong>[47]<\/strong><\/a>, fi\u00a9x\u00e3o, <\/em>j\u00e1 que todo sinthoma \u00e9 artif\u00edcio, artefato, \u00e9 \u201csintoma artificial\u201d. Se ao esbarrar-se com os restos sintom\u00e1ticos, a an\u00e1lise foi dada por Freud como intermin\u00e1vel, Lacan os inclui no sinthoma.<\/p>\n<p>Como um poema que se conclui porque encontrou um ponto onde pausar, ou cortar, ou porque se enamora do vazio da p\u00e1gina, mas que de outro modo, poderia continuar a escrever-se, com suas elipses, lacunas, volteios, avan\u00e7os, recuos, sil\u00eancios\u2026 numa l\u00edngua ao mesmo tempo t\u00e3o \u00edntima e desconhecida como a l\u00edngua das <em>Veredas<\/em> do <em>Grande Sert\u00e3o<\/em>, ou dos sonhos de <em>Finnegans Wake<\/em>.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> MILLER, Jacques-Alain. Ler um sintoma.\u00a0<em>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana<\/em>, S\u00e3o Paulo, n. 70, p. 21.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> FREUD, S. As sutilezas de um ato falho (1935). In: FREUD, S. Edi\u00e7\u00e3o Standard Brasileira das Obras Psicol\u00f3gicas de Sigmund Freud. Vol. 22. Rio de janeiro: Imago; 1976, p.285-287.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> LACAN. Rumo a um significante novo, <em>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana<\/em>, S\u00e3o Paulo, n.22, 1998, p.10.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> LACAN, Jacques. Confer\u00eancia em Genebra sobre o sintoma.\u00a0<em>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana<\/em>, S\u00e3o Paulo, n. 23, 1998, p.6-16.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> LACAN. Rumo a um significante novo, p.6-15.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> MILLER, J.-A. Semin\u00e1rio de Barcelona. Freudiana, n.19, 1997, p. 7-56.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a> MILLER, Jacques-Alain. Semin\u00e1rio sobre os caminhos da forma\u00e7\u00e3o dos sintomas.\u00a0<em>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana<\/em>, S\u00e3o Paulo, n. 60, 2001, p.13-14.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\">[8]<\/a> MILLER. Semin\u00e1rio sobre os caminhos da forma\u00e7\u00e3o de sintomas, p. 24.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\">[9]<\/a> Idem, p.15.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref10\" name=\"_ftn10\">[10]<\/a> FREUD. Os caminhos da forma\u00e7\u00e3o do sintoma, p.427.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref11\" name=\"_ftn11\">[11]<\/a> FREUD. Os caminhos da forma\u00e7\u00e3o do sintoma, p.428.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref12\" name=\"_ftn12\">[12]<\/a> MILLER, <em>Sutilezas anal\u00edticas. <\/em>Buenos Aires: Paid\u00f3s, 2001, p.285.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref13\" name=\"_ftn13\">[13]<\/a> LACAN. <em>Semin\u00e1rio 14, a l\u00f3gica do fantasma<\/em>. Rio de Janeiro: Zahar, 2024, p.323.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref14\" name=\"_ftn14\">[14]<\/a> LACAN. Fun\u00e7\u00e3o e campo da fala e da linguagem. In:\u00a0<em>Escritos<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998, p. 302.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref15\" name=\"_ftn15\">[15]<\/a> \u00a0FREUD, Sigmund. Teoria geral das neuroses [1917]. XXXIII. Os caminhos da forma\u00e7\u00e3o dos sintomas. <em>Confer\u00eancias introdut\u00f3rias \u00e0 psican\u00e1lise<\/em> [1916-17]. Rio de Janeiro: Imago, 1976, p.421.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref16\" name=\"_ftn16\">[16]<\/a> Idem, p. 420.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref17\" name=\"_ftn17\">[17]<\/a> Idem, p.438-39.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref18\" name=\"_ftn18\">[18]<\/a> Idem, p.430.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref19\" name=\"_ftn19\">[19]<\/a> Idem, p.439.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref20\" name=\"_ftn20\">[20]<\/a> Sobre esse ponto, Cf. Millot, C. <em>Gide, Genet, Mishima: intelig\u00eancia da pervers\u00e3o<\/em>. Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 2004.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref21\" name=\"_ftn21\">[21]<\/a> LACAN. <em>De nossos antecedentes<\/em>. In:\u00a0<em>Escritos<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998<em>, <\/em>p. 70.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref22\" name=\"_ftn22\">[22]<\/a> MILLER. Semin\u00e1rio sobre os caminhos da forma\u00e7\u00e3o de sintomas, p. 25.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref23\" name=\"_ftn23\">[23]<\/a> LACAN. <em>Semin\u00e1rio 6, o desejo e sua interpreta\u00e7\u00e3o.<\/em> Rio de Janeiro: Zahar, 22016, p. 255-379.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref24\" name=\"_ftn24\">[24]<\/a> LACAN. <em>Semin\u00e1rio 6, o desejo e sua interpreta\u00e7\u00e3o<\/em>, p. 368.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref25\" name=\"_ftn25\">[25]<\/a> SHAKESPEARE. <em>Hamlet. <\/em>S\u00e3o Paulo: Penguin Classics Companhia da Letras, 2015, p.81<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref26\" name=\"_ftn26\">[26]<\/a> LACAN. <em>Semin\u00e1rio 6, o desejo e sua interpreta\u00e7\u00e3o<\/em>, p. 360-361.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref27\" name=\"_ftn27\">[27]<\/a> SHAKESPEARE. <em>Hamlet, <\/em>p.192-193.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref28\" name=\"_ftn28\">[28]<\/a> MILLER, <em>Sutilezas anal\u00edticas. <\/em>Buenos Aires: Paid\u00f3s, 2001, p.302.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref29\" name=\"_ftn29\">[29]<\/a> Idem, p.286-287.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref30\" name=\"_ftn30\">[30]<\/a> Idem, p.302.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref31\" name=\"_ftn31\">[31]<\/a> Idem, p.302.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref32\" name=\"_ftn32\">[32]<\/a> Idem, p. 303.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref33\" name=\"_ftn33\">[33]<\/a> MILLER. Semin\u00e1rio sobre os caminhos da forma\u00e7\u00e3o de sintomas, p.31.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref34\" name=\"_ftn34\">[34]<\/a> LACAN. Confer\u00eancia em Genebra sobre o sintoma, p.10.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref35\" name=\"_ftn35\">[35]<\/a> MILLER. Semin\u00e1rio sobre os caminhos da forma\u00e7\u00e3o de sintomas, p.32.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref36\" name=\"_ftn36\">[36]<\/a> MILLER. El ultim\u00edsimo Lacan. Buenos Aires: Paid\u00f3s, 2012, p. 171.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref37\" name=\"_ftn37\">[37]<\/a> LACAN. Rumo a um significante novo, p.14.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref38\" name=\"_ftn38\">[38]<\/a> LACAN. Confer\u00eancia em Genebra sobre o sintoma, p.11.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref39\" name=\"_ftn39\">[39]<\/a> LACAN. Rumo a um significante novo, p.8.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref40\" name=\"_ftn40\">[40]<\/a> FREUD, S. O mal-estar na civiliza\u00e7\u00e3o (1930 [1929]). In: FREUD, S. Edi\u00e7\u00e3o Standard Brasileira das Obras Psicol\u00f3gicas de Sigmund Freud. Vol. 21. Rio de janeiro: Imago; 1976, p. 75-171.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref41\" name=\"_ftn41\">[41]<\/a> FREUD, S. Um dist\u00farbio de mem\u00f3ria na Acr\u00f3pole (1936). In: FREUD, S. Edi\u00e7\u00e3o Standard Brasileira das Obras Psicol\u00f3gicas de Sigmund Freud. Vol. 22. Rio de janeiro: Imago; 1976, p.291-303.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref42\" name=\"_ftn42\">[42]<\/a> FREUD. O mal-estar na civiliza\u00e7\u00e3o, p.90.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref43\" name=\"_ftn43\">[43]<\/a> LACAN. Confer\u00eancia em Genebra sobre o sintoma, p.11.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref44\" name=\"_ftn44\">[44]<\/a> Idem.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref45\" name=\"_ftn45\">[45]<\/a> LAUTR\u00c8AMONT. <em>Os cantos de Maldoror.<\/em> S\u00e3o Paulo: Iluminuras, 2008, p.252.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref46\" name=\"_ftn46\">[46]<\/a> MILLER. Semin\u00e1rio sobre os caminhos da forma\u00e7\u00e3o de sintomas, p.24.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref47\" name=\"_ftn47\">[47]<\/a> LACAN. O aturdito, p. 480, 484.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Luc\u00edola Mac\u00eado &nbsp; \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u201cN\u00e3o posso continuar, continuarei\u201d. \u00a0Samuel Becket, em O inomin\u00e1vel \u00a0 Prel\u00fadio H\u00e1 mais de uma psican\u00e1lise na psican\u00e1lise. Da cren\u00e7a de que ler o sintoma e interpret\u00e1-lo tem efeito sobre ele (anular, dissolver, deslocar), ao sintoma \u201creduzido \u00e0 sua f\u00f3rmula inicial\u201d[1] ao seu gr\u00e3o duro, quando o choque da linguagem&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[522],"tags":[],"class_list":["post-57916","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-preparatorias","category-522","description-off"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/jornadasdaebprio.com.br\/2026\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/57916","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/jornadasdaebprio.com.br\/2026\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/jornadasdaebprio.com.br\/2026\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/jornadasdaebprio.com.br\/2026\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/jornadasdaebprio.com.br\/2026\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=57916"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/jornadasdaebprio.com.br\/2026\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/57916\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":57917,"href":"https:\/\/jornadasdaebprio.com.br\/2026\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/57916\/revisions\/57917"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/jornadasdaebprio.com.br\/2026\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=57916"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/jornadasdaebprio.com.br\/2026\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=57916"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/jornadasdaebprio.com.br\/2026\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=57916"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}