{"id":58003,"date":"2026-10-09T05:55:48","date_gmt":"2026-10-09T08:55:48","guid":{"rendered":"https:\/\/jornadasdaebprio.com.br\/2026\/?p=58003"},"modified":"2026-10-09T06:03:04","modified_gmt":"2026-10-09T09:03:04","slug":"o-que-ficou-na-peneira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jornadasdaebprio.com.br\/2026\/o-que-ficou-na-peneira\/","title":{"rendered":"O que ficou na peneira"},"content":{"rendered":"<p><em>Sandra Landim<\/em><\/p>\n<p>Uma jornada \u00e9 feita a muitas m\u00e3os, cabe\u00e7as e corpos, agrade\u00e7o a todos que estiveram envolvidos nestas 33as Jornadas Cl\u00ednicas da EBP-Se\u00e7\u00e3o Rio. Estar na fun\u00e7\u00e3o de coordena\u00e7\u00e3o destas Jornadas junto com a Maria Antunes, foi muito ensinante. Pude aprender com os mal-entendidos, com o bem dizer dos colegas e assim fomos construindo as Jornadas Cl\u00ednicas sobre o Sintoma. Tivemos como t\u00edtulo <em>O corpo sutil do sintoma: la\u00e7os e gambiarras<\/em>. Foi um verdadeiro trabalho de Escola, doze cart\u00e9is fulgurantes foram formados para trabalhar o tema das Jornadas e visando tamb\u00e9m o XXVI Encontro Brasileiro do Campo Freudiano, <em>Barulhos da l\u00edngua: a interpreta\u00e7\u00e3o entre a fala e a escrita<\/em>.<\/p>\n<p>Desde o in\u00edcio, enfrentamos o desafio de inventar um formato diferente, capaz de acolher nossa comunidade e, ao mesmo tempo, favorecer a conversa\u00e7\u00e3o cl\u00ednica. Foram plen\u00e1rias cl\u00ednicas, trabalhamos a cl\u00ednica em todas as mesas. Os autores dos casos estavam na plateia participando da conversa\u00e7\u00e3o, colegas abordaram a l\u00f3gica dos casos e outros trabalharam suas articula\u00e7\u00f5es conceituais. Apostamos em mesas com tempo amplo para a discuss\u00e3o e conseguimos realizar uma jornada vibrante, marcada por trocas e conversa\u00e7\u00f5es muito ricas.<\/p>\n<p>O tema, sintoma, o t\u00edtulo, \u201co corpo sutil do sintoma, la\u00e7os e gambiarras\u201d \u2026 onde achar sutileza nesse processo, nessas marcas que nada tem de sutis? Nos voltamos \u00e0 inf\u00e2ncia, compreendendo, ent\u00e3o, que \u00e9 na montagem do sintoma que existe uma sutileza. A crian\u00e7a \u00e9 banhada pela linguagem. Antes mesmo de falar, a crian\u00e7a \u00e9 falada, recebe um nome, \u00e9 inclu\u00edda em hist\u00f3rias familiares, expectativas, significantes e fantasias. Como j\u00e1 trabalhamos bastante nesses dias, Lacan emprega uma imagem para explicitar esse momento: a linguagem do Outro passa por uma peneira onde ficam detritos com os quais a crian\u00e7a brinca, trope\u00e7a e com o que, mais tarde, vai ter que lidar. O sintoma sustenta. Faz la\u00e7o, na conf. em Genebra, Lacan diz que os sintomas t\u00eam um sentido, e s\u00f3 podem ser interpretados corretamente em fun\u00e7\u00e3o das primeiras experi\u00eancias da crian\u00e7a, e que para serem interpretados \u00e9 preciso que o sujeito deixe cair algo, isto \u00e9, que haja possibilidade de um furo naquilo que o sustenta. Esse paradoxo se esclarece quando o sintoma vai sendo lido a partir de uma cadeia significante que na an\u00e1lise vai deslizando, se deslocando, se descolando, e o sujeito vai tendo que se haver com isso. No final de seu ensino, Lacan volta \u00e0s primeiras confer\u00eancias de Freud e concebe um modo de deslizamento do sintoma. Ele insere uma letra, o h mudo, uma letra que faz toda a diferen\u00e7a. A partir do que trabalhamos, pensei, que \u00e9 nessa letra que o sujeito pode encontrar um intervalo. A letra \u00e9 um fora de sentido que pode operar como intervalo. Intervalo onde pode surgir uma inven\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, no \u00faltimo Ensino o furo n\u00e3o est\u00e1 dado, h\u00e1 uma letra que faz furo na significa\u00e7\u00e3o, mas ela mesma pode ser um intervalo para que o sujeito encontre um espa\u00e7o. N\u00e3o se trata de extirpar o sintoma, mas de saber fazer com ele, o que n\u00e3o \u00e9 tarefa f\u00e1cil.<\/p>\n<p>Encerramos as Jornadas sem fechar o tema, ao contr\u00e1rio: que algo permane\u00e7a aberto, que o sintoma continue nos fazendo trabalhar. Que alguma pergunta possa seguir conosco, talvez uma letra, talvez um resto.<\/p>\n<p>Estas Jornadas, n\u00e3o s\u00e3o para concluir, mas para fazer seguir o trabalho. Que aquilo que ficou em aberto possa nos acompanhar at\u00e9 o XXVI Encontro Brasileiro do Campo Freudiano e que, l\u00e1, outras perguntas, letras e restos possam encontrar lugar.<\/p>\n<p>O que fica para mim desse ano de trabalho, n\u00e3o \u00e9 uma conclus\u00e3o sobre o sintoma, mas a possibilidade de continuar a escut\u00e1-lo, de continuar a l\u00ea-lo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sandra Landim Uma jornada \u00e9 feita a muitas m\u00e3os, cabe\u00e7as e corpos, agrade\u00e7o a todos que estiveram envolvidos nestas 33as Jornadas Cl\u00ednicas da EBP-Se\u00e7\u00e3o Rio. Estar na fun\u00e7\u00e3o de coordena\u00e7\u00e3o destas Jornadas junto com a Maria Antunes, foi muito ensinante. 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