Estamos hoje, dia 18 de maio de 2026, reunidos para dar o pontapé inicial nas nossas Jornadas Clínicas anuais, as 33as. Esse é um momento especial, em que nossa comunidade se reúne em torno do desejo de pensar a clínica que nos ocupa cotidianamente, em nossa cidade, com os recursos que constituem a invenção de Freud, o ensino de Lacan, a orientação lacaniana.

Minha função hoje não é, contudo, falar sobre as Jornadas em si – isso será feito pelas coordenadoras, Maria Antunes e Sandra Landim, e por Ana Lucia Lutterbach, coordenadora da Comissão de Orientação, as quais agradeço muito por terem aceitado o convite com tanto entusiasmo. Antes de passar a palavra a elas, gostaria de situar o lugar que as Jornadas ocupam na vida da Seção Rio e no conjunto mais amplo de nossa atividade institucional.

Em primeiro lugar, é preciso levar em conta que somos uma Seção da EBP, hoje composta por outras seis Seções: Seção Sul, Seção São Paulo, Seção Minas, Seção Bahia, Seção Leste-Oeste e Seção Nordeste. A EBP, por sua vez, se insere na AMP, composta por sete Escolas ao redor do mundo.

No que diz respeito aos eventos, isso significa que nossas Jornadas anuais convivem com o Encontro Brasileiro do Campo Freudiano (EBCF), com o Enapol e com o Congresso da AMP. Esse último acaba de ser realizado em Paris e ainda ressoa entre nós. O próximo ocorrerá em 2028 e seu título já nos provoca: “O impossível de suportar”.

O EBCF, por outro lado, não está no retrovisor, mas em nosso horizonte – e não apenas no sentido cronológico. Ele ocorrerá em novembro, em Florianópolis: “Barulhos da língua: a interpretação entre a fala e a escrita”. Fizemos a aposta de pensar nossas Jornadas mirando nesse Encontro, buscando uma costura entre o trabalho desenvolvido na Seção e o debate que o EBCF nos convoca a travar.

Nossas duas últimas Jornadas tiveram uma espécie de afinidade no tom, na concepção. Em 2024, “A palavra e a pedra” tomou a interpretação como questão. No ano passado, nos reunimos em torno da transferência, da “Transferência na prática”. Se por um lado esse par parecia pedir uma tríade, por outro nós mirávamos, como eu disse, no EBCF. Apostamos, assim, que o tema do sintoma seria a dobradiça que buscávamos. Como vocês verão a seguir, essa ideia foi abraçada, refinada e desenvolvida pela Comissão de Orientação das Jornadas, que chegou no seguinte título: “O corpo sutil do sintoma: laços e gambiarras”.

Antes de concluir, gostaria de registrar dois aspectos do modo como a Seção está se preparando para as Jornadas: temos feito um esforço de articular os Seminários da Seção, tanto entre si quanto com as Jornadas. O “Seminário de Orientação Lacaniana”, o de “Política da Psicanálise” e o “Seminário Clínico”, cada um ao seu modo, estão e seguirão sendo espaços exploratórios do nosso tema. Além disso, uma ampla iniciativa de formação de cartéis está sendo posta em marcha. É desse movimento coletivo e relativamente descentralizado que virá a matéria que alimentará nossas Jornadas. Convido cada um de vocês a se engajar na investigação do corpo sutil do sintoma. Obrigado.

Rodrigo Lyra

Boa noite. É com grande prazer que estamos aqui no lançamento das 33as Jornadas Clínicas, “O corpo sutil do sintoma: laços e gambiarras”. Gostaria de agradecer o convite do Rodrigo Lyra, diretor da EBP-Seção Rio, para coordenar essas Jornadas e estender o agradecimento a toda a diretoria e ao conselho da Seção Rio. É muito bom estar na coordenação junto com Maria Antunes, que, muitos sabem, é amiga de longa data, lá dos tempos em que os sintomas se formam…

Enveredando pelos textos que abordam o tema, Maria sugeriu o texto de Lacan, “Conferência em Genebra sobre o sintoma”, que foi muito bem recebido pela diretoria. Houve uma convergência em vários espaços de estudo e de discussão na Seção Rio a partir deste texto.

Lacan diz que os sintomas se cristalizam na criança na sua mais tenra infância e que é preciso relacionar isto à análise dos sonhos e dos atos falhos que, como diz Freud, devem ter algum sentido.

Uma passagem da conferência em Genebra ficou ressoando em mim, aquela onde Lacan fala muito poeticamente que a criança é banhada pela linguagem como a água passa por uma peneira e deixa alguns detritos que aí permanecem. É com estes restos que mais tarde a criança vai ter que lidar. Podemos pensar que esses restos tecem partes do sintoma? 

Cartaz:

Agora vou apresentar o cartaz. Esse trecho do texto também deu forma ao cartaz que Luiza Vaz, designer das Jornadas, soube com muita delicadeza transformar numa arte. O cartaz foi criado pensando na ideia da criança atravessada pela água da linguagem, que surge a partir da imagem literal da peneira com o movimento da água caindo, que aparece atrás desses recortes irregulares. Eles escondem parte do texto e da peneira para mostrar que algo nunca é totalmente perceptível. Esse trecho da Conferência está no fundo da imagem nas letrinhas verticais cujo aspecto granulado foi pensado para trazer uma certa materialidade. Como se o texto virasse também matéria, alguns detritos ficam retidos na peneira. 

Comissões:

Falando um pouco sobre as comissões, montamos as coordenações pensando na possibilidade de também haver um trabalho epistêmico, ou seja, os coordenadores participariam da comissão ampliada de Orientação. Gostaríamos de agradecer a todos. Além disso, este ano, estamos propondo que as comissões trabalhem como uma teia, entrelaçando todas as comissões que precisam conversar entre si. A tesouraria colocou um participante em cada comissão. Então, teremos um representante de cada comissão em outra. Assim, a estrutura das Jornadas vai se tecendo. 

Boletim:

O boletim destas Jornadas chama-se Fissuras, um significante que surgiu na comissão de orientação. A palavra carrega um duplo sentido: remete tanto ao desejo intenso por algo quanto às rachaduras do solo do sertão – os sulcos que se formam, quando a água da chuva percorre a terra e nela deixa suas marcas. 

Local:

As Jornadas serão realizadas no Hotel Vila Galé no meio do burburinho da Lapa. É incrível entrar e se deparar com um edifício histórico de meados do século XIX, onde ficava o palacete da Rua do Riachuelo, que posteriormente foi um hotel e uma escola. Em 2014, sofreu uma reforma e foi inaugurado o Hotel Vila Galé. Ao passar pela porta parece que abrimos o armário de Nárnia.

Passo agora a palavra à Maria Antunes que vai falar da estrutura das Jornadas.

Sandra Landim

Boa noite, quero agradecer ao diretor, Rodrigo Lyra, ao conselho da EBP-Seção Rio, e a toda a diretoria pelo convite para fazer o trabalho de coordenação das 33as Jornadas Clínicas da EBP-Seção Rio. Também quero desde já agradecer a Sandra Landim pela parceria, com quem tem sido uma alegria coordenar essas Jornadas!

Digo trabalho porque tomamos como direção a aposta de colocar em movimento na Seção Rio uma transferência de trabalho em direção às 33as Jornadas: “O corpo sutil do sintoma: laço e gambiarras”, e em direção ao XXVI Encontro Brasileiro do Campo Freudiano: “Barulhos da língua: a interpretação entre a fala e a escrita”.

Para isso, a diretoria, o conselho, a editora da Latusa, as coordenações dos seminários e as coordenadoras das Jornadas têm se reunido em um trabalho permanente de estudo de textos e de discussão epistemológica, delimitando alguns fios orientadores que vêm norteando os trabalhos da EBP-Seção Rio.

A escolha do texto para dar a largada ao trabalho se deu pensando nessa dobradiça do sintoma e dos barulhos da língua. Nessa perspectiva, após ler vários textos, a “Conferência em Genebra” de Lacan nos tomou no laço! Decidimos colocá-la em circulação e fazer algumas conversações, extraindo elaborações provocadas que movimentam a tessitura das Jornadas.

Assim, esse texto nos ajuda a abrir o trabalho, a partir da teorização de Lacan da concepção do sintoma não só como mensagem a ser decifrada. Ele aponta também para o que se constitui, quando o encontro da linguagem, a língua do Outro, entra em choque com o corpo do infans e deixa marcas, detritos intraduzíveis. Esses detritos compõem as sutilezas, a partir e com as quais o falasser vai forjar seu sintoma e se enlaçar na língua do Outro. Miller conceitualizou essas marcas, enquanto gozo autista que ressoa, e que pede leitura.

Uma pergunta clínica é: Como a psicanálise pode, hoje, ser útil para que cada um possa passar desse gozo autista ao laço com o Outro, fazendo ressoar sua sutileza que vivifica, sem ser mortificado pelo imperativo de ter que estar no laço, a partir de um universal para todos?

Pensamos a estrutura das Jornadas a partir da coordenação da Comissão de Orientação, conduzida por Ana Lucia Lutterbach, de modo a ampliar o trabalho epistêmico de leitura desse texto e de extração de perguntas e questões. Então, incluímos momentos de trabalho com todas as coordenações das comissões das Jornadas, provocando um movimento que possa construir o trabalho epistêmico e faça circular pequenas elaborações. a partir das quais as Jornadas estão se constituindo.

Nessas Jornadas Clínicas, estamos apostando no formato de uma grande conversação clínica. Para isto, teremos várias plenárias que vão trabalhar a partir do envio dos trabalhos. Contaremos não somente com que estiver nas mesas das plenárias, mas também com os participantes da sala. Nossa querida coordenadora, Ana Lucia, e a Comissão de Orientação estão em pleno trabalho de estruturação das plenárias.

A convite da diretoria da Seção Rio e da Comissão de Orientação, contaremos também com uma plenária do Instituto de Clínica Psicanalítica do Rio de Janeiro, o ICP-RJ.

A proposta para o envio de trabalhos se dará da seguinte forma:

  • Contamos em receber vinhetas clínicas que toquem o tema tanto dos que estão no movimento dos cartéis, que acontecem na Seção, quanto das pessoas interessadas em enviar seus trabalhos.
  • Nas mesas das plenárias teremos leitores. Os leitores apresentarão as questões e pontuações que recolherem nas vinhetas recebidas.
  • Nossa aposta é a de que os leitores, junto aos autores das vinhetas, assim como os participantes da sala, formem uma conversação clínica.

Contaremos também com duas convidadas: Marcela Antelo, AME, membro da EBP e da AMP, da Seção Bahia, e Silvia Salman, AME, membro da EOL e da AMP – ambas virão de forma presencial. Lembrando que apostamos no encontro e que as Jornadas serão unicamente no formato presencial.

Maria Antunes