Bruna M. Guaraná e Isabel do Rêgo Barros

Do que é feito um sintoma? Depende de que sintoma estamos falando. O sintoma freudiano, podemos entendê-lo à luz da expressão de Lacan “envoltura formal do sintoma”, usada em 1966. Essa definição está intrinsecamente ligada à “roupagem” de linguagem do sintoma e aponta, segundo Miller, para o mecanismo significante, a partir do qual há efeitos de sentido. Freud, logo no início de sua “Conferência XVII – O sentido dos sintomas”, afirma que:

[…] a psiquiatria clínica atenta pouco para a forma externa do conteúdo dos sintomas individualmente considerados, que a psicanálise, entretanto, valoriza precisamente este ponto e estabeleceu em primeiro lugar que os sintomas têm um sentido e se relacionam com as experiências do paciente. (FREUD, 1988, p. 305)

Diferentemente do lugar dado ao sintoma pela psiquiatria clínica, ele é descrito aqui ao lado de outras formações do inconsciente, os lapsos, esquecimentos e sonhos, que têm uma importante conexão com a vida de quem os produz: “Quanto mais individual for a forma dos sintomas, mais motivos teremos para esperar que seremos capazes de estabelecer essa conexão [com a vida do paciente]” (FREUD, 1988, p. 319).

Essa perspectiva vai ao encontro do que Lacan afirma, na “Conferência em Genebra”, quando diz: “O que são os sonhos senão sonhos relatados? É no processo de seu relato que se lê o que Freud chama seu sentido.” (LACAN, 1998, p. 6).

A leitura aqui implicada leva em conta a dimensão de escrita da própria maquinária significante em jogo na formação do sintoma. Essa escrita é lida sob dois aspectos: tanto através do próprio sintoma, sua forma, quanto através do que se enuncia dele na narrativa de quem o vive.

Vejamos uma coisa, como Freud lê os casos dos quais fala?

Na ocasião da “Conferência XVII – O sentido dos sintomas”, Freud demonstra, através de dois fragmentos clínicos de histeria, a forma como lê o que diz serem os sintomas obsessivos: através de seu caráter de obrigatoriedade.

O primeiro caso, como bem resume Miller em “Seminário sobre os caminhos da formação dos sintomas”, trata de uma mulher que, através de um ritual singular, tenta compulsivamente proteger o marido impotente. O segundo é um cerimonial de dormir que coloca em cena a não relação sexual, recoberta pelo vínculo libidinal com o pai.

Nesses dois exemplos, especialmente no primeiro, é interessante notar a singularidade na forma de “falar” ou de se expressar desse sintoma. A paciente se desloca do seu quarto até um outro contiguo ao seu, se posiciona de tal maneira ao lado de uma mesa colocada no meio do aposento, soa a campainha para chamar a empregada, lhe dá algum recado ou a dispensa sem maiores explicações e retorna ao seu quarto.

Todo esse mecanismo é no mínimo inusitado. Mas o que Freud lê aí, a partir da sua hipótese do inconsciente, é a maneira que teve o sujeito de falar através desse seu sintoma. Há toda uma revolução epistêmica que essa forma de leitura promove.

Num primeiro momento, então, essa subversão na maneira de ler o sintoma levou Freud a afirmar que o sintoma desapareceria quando se fizessem consciente seus motivos predeterminantes inconscientes. Aquilo que estava recalcado seria liberado pela interpretação e o opaco do sintoma seria subjetivado. É o que Miller chama de “otimismo interpretativo freudiano.” (MILLER, 2011, p. 332).

O princípio é excelente, mas faltaria avisar isso para os sintomas. Os próprios sintomas desconhecem esse princípio, não são movidos por essa lógica. Ainda que alguns sintomas possam se desfazer, há algo que caminha e se desloca, retornando sob outras formas.

O próprio Freud se dá conta desse otimismo iniciante e afirma que os pacientes, paradoxalmente, sofrem de seus sintomas, mas não parecem tão desejantes de se liberarem deles. Passam a resistir, não ser tão colaborativos após o entusiasmo da entrada em análise. É a partir daí, do encontro com a resistência, que Freud reconhece o aspecto de gozo presente no sintoma, sua função de satisfação substitutiva.

Voltando a tomar Miller, reconhecemos no sintoma um “a mais” que não há em outras formações do inconsciente: há uma opacidade que dura e que transforma o corpo, à diferença do sonho, por exemplo. É o que faz Freud introduzir o fator econômico e afirmar ser ele uma “satisfação substituta daquilo que se perde na vida” ou do que seriam os “desejos sexuais”. O enfoque passa para o ponto de vista libidinal e econômico (FREUD, 1988, p. 352).

Assim, como os rituais de dormir mencionados no texto de Freud podem ser entendidos como medidas defensivas contra recordações e tentações sexuais, os sintomas realizam substitutivamente aquilo de que se defendem. É isso o que deixa em evidência, segundo Miller, o caráter de formação de compromisso do sintoma e a conexão entre gozo e defesa. A partir da “Conferência XVII”, nas seguintes conferências até a XXIII – “O caminho da formação dos sintomas”, esse fator libidinal vai ganhando cada vez mais destaque.

Na “Conferência XXIII”, a libido pode ser sublimada ou sintomatizada. Freud estuda os caminhos da sua sintomatização, mas esse não é seu único destino.

Considerando esses dois aspectos, o sintoma como escrita a ser lido e o sintoma como satisfação que toca o corpo, introduzimos a seguinte pergunta, a ser explorada pelas diversas contribuições clínicas que esperamos receber para animar nossas Jornadas: como se faz na prática clínica para não perder de vista esse “a mais” do sintoma em relação às outras formações do inconsciente e buscar dar a esse aspecto específico algum destino também pela leitura? Em outras palavras, como a leitura do sintoma em análise pode tocar o aspecto de gozo presente nele?

 

Referências bibliográficas
FREUD, S. (1917). Conferência XVII – O sentido dos sintomas. In: _____. Conferências introdutórias sobre psicanálise. v. XVI, ESB, 1988.
LACAN, J. (1975). Conferência em Genebra sobre o sintoma. Opção Lacaniana: Revista Brasileira Internacional de Psicanálise, n. 23, São Paulo, Eólia, dez. 1998, p. 6.
MILLER, J-A. Seminário sobre os caminhos da formação dos sintomas. Opção Lacaniana, n. 60, set. 2011.