33as Jornadas Clínicas da EBP-Seção Rio

O corpo sutil do sintoma

Laços e gambiarras

 

Notas para uma jornada

 O título:

A comissão de orientação chegou ao título “O corpo sutil do sintoma” inspirada na passagem extraída dos Escritos de Lacan: “A fala, com efeito, é um dom de linguagem, e a linguagem não é imaterial. É um corpo sutil, mas é corpo.”[1] e acrescentamos “Laços e gambiarras”, em referência aos Seminários da Seção Rio.

Existem muitos caminhos para se chegar ao “sintoma”: abordar o conceito desde Freud em sua investigação sobre os sintomas histéricos, ilegíveis pelos médicos de sua época, através do qual ele pôde formular a existência do inconsciente; ir ao ensino de Lacan até sua invenção do sinthome em Joyce e chegar assim até à clínica atual sob a Orientação Lacaniana nos cursos de Miller; situar as manifestações sintomáticas em um caso clínico ou buscar a função do sintoma em cada uma das estruturas. E muitos outros.

Trago aqui algumas notas baseadas na conferência[2] de Lacan em Genebra sobre o sintoma, nossa principal referência para as Jornadas. Nesta conferência, Lacan, além de tratar de outros assuntos como o lugar do analista e o passe, ele aborda o sintoma em alguns aspectos, poucos, mas fundamentais para a largada inicial de nossos trabalhos.

 As notas:

  1. Sintoma e sonho: “É absolutamente certo que é pelo modo como a lalíngua foi falada e, também, entendida por fulano ou beltrano, em sua particularidade, que alguma coisa, em seguida, reaparecerá nos sonhos, em todo tipo de tropeço, em todo tipo de formas de dizer”.[3]

Freud propõe tratar o sonho com o mesmo método elaborado para a interpretação do sintoma, método através do qual ele havia chegado à descoberta do inconsciente. Para relatar um sonho em análise, ele recomenda – em A interpretação do sonho[4] – eliminar a ordem habitual das formações de pensamentos que afloram na sessão de análise, renunciar às críticas e deixar a ocorrência de ideias que aparentemente não tem importância ou pareçam sem sentido, tornando, assim, voluntárias as representações involuntárias.[5] Se Freud lê o sonho como aprendeu primeiro a ler o sintoma, Lacan inverte o caminho freudiano e propõe ler os sintomas como os relatos de sonho.

Freud lembra, ali também, uma carta de Shiller, na qual ele associa essa posição do sonhador, ao relatar um sonho, à condição da produção poética, onde as ideias se precipitam desordenadamente. Diante dessa desordem, Freud nos aconselha a não temer a vergonha ou a loucura momentânea da associação livre, pois é a mesma que se encontra em cada um dos artistas, quando se dedicam à escrita.

  1. Inconsciente e linguagem: “Como sustentar uma hipótese como a do inconsciente? Se não se vê que é a maneira que encontrou o sujeito, […] de estar impregnado pela linguagem”.[6]

Lacan diz “impregnado pela linguagem” e mais adiante chama atenção para a forma pela qual foi “instilado” no sujeito um modo de falar, que leva a marca como os pais aceitaram a criança, isto é, o modo como foi desejado.

Há aí uma nuance, que me parece importante, entre o desejo como desejo do Outro e a forma como foi desejada é “instilada” na criança. Isto é, a maneira que foi introduzida gota a gota, não o quê os pais desejaram, não os significantes do desejo do Outro que marcaram o sujeito, mas como foi desejado, a maneira como as palavras foram proferidas e ressoaram no corpo do sujeito “no momento em que ele era nada”.[7] Encontrei no dicionário que “instilar” é usado para descrever ações sutis, o que, por coincidência, ressoa com o nosso título.

Lemos aí que a linguagem intervém então sob a forma de lalíngua, por isso sua ambiguidade. O exemplo de Lacan dessa ambiguidade é a homofonia entre as palavras noeud [nó] e ne pas (que em francês tem o mesmo som). Em português podemos lembrar o exemplo Marícia Ciscato, no último Seminário de política “Lalíngua e o laço”, a ambiguidade produzida pela homofonia entre cálice [taça] e cale-se [do verbo calar], onde a diferença só aparece na leitura do dizer e não na escuta.

O inconsciente para Lacan reside no que chamou “moterialisme”, um neologismo que reúne mot [palavra] e materialisme [materialismo], difícil de traduzir para o português com a mesma eficácia que soa em francês, onde lemos nitidamente palavra e materialidade, a palavra em sua literalidade separada do sentido. É no moterialisme, diz ele, na matéria da palavra, que cada um encontra nos sintomas modos de se sustentar. Se sustentar diante de qual insustentável?

Para Lacan, o sintoma surge para fazer suplência à não existência da relação sexual. Ele encontra nas duas conferências de Freud – “O caminho dos sintomas” e “O sentido dos sintomas” –, que os sintomas têm um sentido e um sentido que revela uma parte do sujeito relativa ao seu encontro com a realidade sexual. “Realidade sexual especificada no homem pelo fato de que não há, entre macho e fêmea, nenhuma relação instintiva”[8], realidade que Lacan reduziu ao aforisma “Não há relação sexual”, tema exaustivamente trabalhado no último congresso da AMP.

“O inconsciente é uma invenção no sentido de que é uma descoberta associada ao encontro que certos seres têm com sua ereção.”[9]: o exemplo de Lacan é o sintoma do Pequeno Hans, sua fobia como expressão, significação, de uma recusa do sexual no encontro com a própria ereção que não é, pontua Lacan, absolutamente um gozo autoerótico, é o que há de mais hetero, pois não é experimentado como próprio, mas como um objeto enganchado ao corpo.

  1. Trauma e banho: “O fato de que uma criança diga talvez, ainda não, antes mesmo de ser capaz de construir verdadeiramente uma frase, prova que há algo nela, uma peneira que se atravessa, por onde a água da linguagem chega a deixar algo na passagem, alguns detritos com os quais ela vai brincar, que ela, necessariamente, terá que lidar.”[10]

Essa passagem de Lacan indica uma diferença entre a linguagem como trauma e a linguagem que banha o corpo e nesse escoamento deixa detritos, pedaços de palavras sem sentido, com os quais a criança vai lidar, vai brincar. Essa mudança do trauma à brincadeira não é sem consequências para a clínica e este, certamente, será um ponto explorado em nossos debates. Aqui a linguagem não traumatiza o corpo, não é uma marca, mas atravessa uma “peneira”, termo que achei também em uma entrevista de Marguerite Duras e, surpreendentemente, com o mesmo sentido lacaniano:

[…] quando escrevo, tenho a sensação de estar na extrema desconcentração, não me possuo mais de jeito nenhum, eu mesma sou uma peneira, tenho a cabeça esburacada. Só posso explicar a mim mesma o que escrevo dessa maneira, porque há coisas que eu não reconheço naquilo que escrevo. Então elas vêm de outro lugar, não estou sozinha quando escrevo. […] tudo chega de todos os lados.[11]

No entanto, em Lacan, a peneira é algo nela, na criança, enquanto em Duras, ela é a peneira.

  1. Joyce, o sinthoma: “Joyce tentou situar o ser humano de uma forma que só tem um mérito, o de diferir de tudo que foi enunciado a esse respeito precedentemente.”[12]

Sabemos que a conferência de Genebra foi no mesmo ano do seminário de Lacan sobre O sinthoma, onde a escrita de Joyce é seu paradigma para explorar o sintoma em sua vertente real. Uma escrita que exige um outro leitor. D. Schüler, tradutor de Joyce para o português, chama atenção para o fato de que o texto de Joyce provoca uma ruptura entre autor e leitor, ruptura de um pacto que o leitor sabia que o autor não o trairia.[13] Lacan com Joyce é um convite a aprender a ler um o autor que não escreve para o leitor, não adivinha expectativas e nem procura satisfazê-las, Joyce deixa o leitor abandonado. É a partir dessa invenção joyciana que Lacan nos incita a ler o sintoma, quando o inconsciente não é só o discurso do Outro, não é uma verdade a ser desvelada e o sintoma surge como uma montagem que faz corpo e laços imprevisíveis, absolutamente únicos.

No Seminário clínico da Seção Rio, “Ressonâncias e gambiarras: a clínica do sinthoma”, Marcus André Vieira, referindo-se ao paradigma joyciano, fala do sintoma como uma montagem, tanto através do recalque como por outros caminhos não tipicamente do recalque. Nessa perspectiva, o sintoma é o que faz corpo e localiza alguma perda de gozo que permite tanto a estabilização do corpo quanto o laço e essa montagem será feita ao modo de articulação de materiais preexistentes, gambiarras (tradução de “bricolagem”, sugerida por Antônio Teixeira), com o qual estamos mais familiarizados no campo da psicose e que será generalizado com o último ensino de Lacan. O próprio Marcus se pergunta se há realmente uma perda ou apenas um deslocamento de gozo como enfatizou Miller em uma de suas intervenções no Congresso.

Concluo minhas notas não sem antes deixar aqui uma afirmação intrigante de Lacan acompanhada de uma interrogação: “[…] foram de preferência as mulheres que inventaram a linguagem. Como a mulher inventou isso?”.

Encontrei em um texto de Philippe La Sagna[14] uma citação de Antoni Vicens na qual ele formulou a hipótese de que uma língua que se decompõe tem por efeito feminizar as relações humanas e produzir uma comunidade de gozo, necessariamente fora da lei, pois este “fora da lei” é a condição da criação. Ele sustenta que Lacan “considera as mulheres, mais exatamente o gozo feminino, na origem da unidade das línguas”.[15]

 

Ana Lucia Lutterbach

 


[1] LACAN, J. “Função e campo da fala e da linguagem”. In: Escritos, p. 302.
[2] LACAN, J. “Conferência em Genebra sobre o sintoma”. In: Opção Lacaniana. Revista Brasileira Internacional de Psicanálise, n. 23, p. 6 (daqui em diante [CG]).
[3] Idem, p. 10.
[4] FREUD, S. A interpretação do sonho. Obras Incompletas de Sigmund Freud. Belo Horizonte: Autêntica, 2025, p. 139.
[5] Idem, p. 140-141.
[6] CG, p. 9.
[7] Idem.
[8] Idem, p. 11.
[9] Idem.
 [11] DURAS, Marguerite. Em entrevista a Michelle Porte. Les lieux de Marguerite Duras, 1977, p. 98.
[12] CG, p. 16.
[13] SCHÜLER, D. Finnicius revém. São Paulo: Ateliê Editorial, 2012, v. 1, p. 92.
[14] Disponível em: https://www.hebdo-blog.fr/lacan-femmes-lalangue/.
[15] VICENS, A. Guerra, dictadura y régimen de goce em el franquismmo. In: BROUSSE, M.-H., El psicoanálises a la hora de la guerra. Buenos Aires: Três Haches, 2015, p. 245.