Francisca Menta e Sandra Landim

Neste tema, pretendemos investigar, a partir da clínica, as invenções singulares, os arranjos cotidianos, que cada sujeito produz para construir os laços capazes de sustentá-lo no mundo, seja de forma temporária, extraordinária ou simples (porém não menos importante). Visamos pensar o sintoma como uma montagem de vida, um operador de existência, na medida em que envolve o corpo e os seus modos de gozo – um corpo sutil, tecido por marcas e usos.

Para Sigmund Freud, o sintoma é uma formação inconsciente que representa a realização de um desejo recalcado. Sendo singular à experiência de cada sujeito, como uma mensagem a ser decifrada e que busca uma satisfação sexual inconsciente.

Com Jacques Lacan, especialmente a partir de seu último ensino, o sintoma deixa de ser concebido apenas como uma mensagem a ser decifrada e passa a ser compreendido como um modo de gozo, uma satisfação e uma forma singular que permite ao falasser sustentar sua existência e fazer laços. Lacan enfatiza a importância do sinthoma, da amarração dos três registros (real, simbólico e imaginário) e de um savoir-y-faire um “saber fazer com” o sintoma como recursos fundamentais.

É nessa direção que Jacques-Alain Miller, a partir da leitura de Lacan de James Joyce, nos indica a tratar o sintoma não como um mal a ser eliminado, mas como uma invenção própria de cada sujeito para estabilizar sua estrutura psíquica.

Seria a gambiarra, termo abrasileirado para as soluções cotidianas, uma forma de lidar com o irreparável[1] daquilo que insiste e que cada sujeito precisa criar para lidar com o real?

Algumas perguntas podem orientar nossa pesquisa nessas Jornadas: se sintoma é o que sustenta o sujeito no mundo, como diz Lacan na “Conferência em Genebra”, como o sintoma faz corpo? Quais são suas marcas, usos e modos de gozo? A partir de tais perguntas surgem outras para nosso tema. As gambiarras como invenções precárias e/ou eficazes são soluções, muitas vezes fora da norma, mas que funcionam. Podemos nos perguntar, em cada caso, o que funciona para o sujeito como uma gambiarra que o mantém de pé? Como ele constrói ou perde seus laços e que papel o sintoma desempenha nisso? Qual a diferença entre as gambiarras e as invenções sinthomáticas?

Convidamos ao trabalho de escrita sobre o sintoma, os laços, as gambiarras e as invenções que se articulam numa clínica que não visa a suprimir o sintoma, mas acompanhar suas transformações.

 

Referências bibliográficas
FREUD, Sigmund. Teoria geral das neuroses. (1917). 17. O sentido dos sintomas. In: _______. Conferências introdutórias à psicanálise. (1916-1917). São Paulo: Companhia das Letras, 2014. p. 343-363. Obras completas, v. 13.
LACAN, Jacques. Conferência em Genebra sobre o sintoma. Opção Lacaniana, São Paulo, n. 23, p. 6-16, dez. 1998.
MILLER, Jacques-Alain. Seminário sobre os caminhos da formação dos sintomas. Opção Lacaniana, São Paulo, n. 60, p. 11-37, set. 2011.
MILLER, Jacques-Alain. A invenção psicótica. Opção Lacaniana, São Paulo, n. 36, p. 6-16, maio 2003.
SEDLMAYER, Sabrina. Quem não tem cão caça com gato: estudando a gambiarra. Rio de Janeiro: UFRJ, 2026.
TEIXEIRA, Antônio. A aura da gambiarra. Derivas Analíticas, Belo Horizonte, n. 17, p. 0-0, jun. 2022.

[1] Irreparável termo extraído do livro Quem não tem cão caça com gato: estudando a gambiarra de Sabrina Sedlmayer, que propõe uma análise da gambiarra e sua incidência para além da vida cotidiana, na literatura, na cultura e nas artes. Como a arte de adaptar, improvisar e encontrar soluções simples e criativas para pequenos problemas cotidianos. Este livro que vem sendo trabalhado no Seminário Clínico da EBP-Seção Rio de 2026.