A noite da preparatória para as 33as Jornadas da EBP-Rio, cujo tema O corpo sutil do sintoma: laços e gambiarras, contou com apresentação de Lucíola Macedo que nos convidou ao trabalho com seu instigante texto – com diferentes possibilidades de entrada – nesse tema tão vasto. Lucíola propôs um modo de revisitar as Conferências Introdutórias de Freud – a luz da orientação de Miller em seu Seminário sobre os caminhos da Formação do sintoma. Destaco: uma base “simples, firme e evidente sobre qual elucubrar”, trata-se do sintoma entre sentido e gozo.

Freud em sua prática clínica toma o sintoma como um ponto à espera de decifração que teria remissão a partir disso. Para Lacan: “o sintoma consiste em um significante cujo significado está recalcado. O material significante do sintoma pode ser retomado em uma parte do corpo, ou parasitando pelo significado recalcado ou no pensamento”1. Mais à frente, em seu ensino, o desejo, o pulsional serão mais abordados.

A delicadeza da relação entre sentido e gozo – a partir da operação proposta por Miller – nos convida a clínica. Aqui, me deixo guiar pela proposta de separar e de articular sentido e gozo. Tomemos um conhecido caso trazido por Freud no Projeto e o que é possível extrair ao visitá-lo, novamente. No caso Emma, sua fobia de entrar em lojas e o medo que sentia frente aos comentários dos outros sobre suas roupas a levaram à análise. Certa vez, ficara seduzida frente ao gracejo de um funcionário que despertara seu interesse. Uma segunda lembrança dará sentido a primeira: certa vez em que esteve numa loja sozinha, quando era criança, o dono do estabelecimento agarrou suas partes íntimas por cima de sua roupa. Desse modo, concluímos que a primeira cena assume o lugar de trauma inicial, ao ser confrontada com a excitação sexual da segunda cena. A primeira porta um caráter estrangeiro e, ao mesmo tempo, íntimo ao sujeito. Já a segunda cena, ao ser retomada, recoloca o sentido à primeira. Vale retomar que, em sua apresentação do caso Emma, Freud visava abordar o trauma.

Em relação a fundação o gozo de Emma, assinala Vieira (2001), é algo entre “a mão e o agarramento”, o que condiciona seu retorno à loja. Dito isso, do caso Emma, lê-se que: “este algo diz respeito ao inominável do desejo que se corporifica necessariamente em um objeto de gozo. Tomando uma licença teórica, poderíamos supor uma continuação para o caso Emma, em que a partir desta interpretação de Freud, fosse possível trazer à baila o gozo, até silencioso, ligado, por exemplo, às suas fantasias masturbatórias” (p. 81).

Com Lacan é possível interpretar os dizeres de Freud e tomar a “fixação ao trauma” como uma mensagem de fixação de gozo. O retorno de Emma as lojas, não como mera repetição, mas como uma marca do excesso pulsional, do seu encontro com o sexual.

Vamos às Jornadas!

 


1 Seminário sobre os caminhos da formação do sintoma, p. 1
FREUD, S. (1917) “Os caminhos de formação dos sintomas” In Conferências Introdutórias à psicanálise. Rio de Janeiro, Imago, 1976.
_______ (1895) “Projeto para uma Psicologia Cientifica” In: Publicações Pré-psicanalíticas e Esboços Inéditos (pp. 387-463). Rio de Janeiro: Imago, 1976
MILLER.J-A. (2011) “Seminário sobre a formação do sintoma” In Opção Lacaniana, n. 60
VIEIRA, M. A. (2001) A ética da paixão: uma teoria psicanalítica do afeto. Jorge Zahar Editor.