Maria Antunes

Coordenar a construção dessas jornadas foi uma experiência muito ensinante com a qual aprendi a cada vez uma parceria sintomática de trabalho, num coletivo composto pelo sintoma de cada um.

Apoio me aqui no que Jacques-Alain Alain Miller propõe com o sintagma parceiro sintoma.

Nesse sentido, o sintoma é o que define o modo como se constrói a parceria e não o contrário. A parceria sintomática não se dá porque somos amigos ou porque nós somos parecidos. A ideia desta parceria rompe com isto, pois se define por singularidades, porque os sintomas formam singularidades que fazem parcerias.

Estou muitíssimo bem impressionada pelo trabalho decidido de cada um que participou na montagem destas jornadas. É muito vivificante experimentar na função de coordenação a transferência de trabalho, no movimento da escola, que possibilita que as Jornadas aconteçam. Desde a organização do espaço, livraria, plenárias e muitas outras coisas, o trabalho nas comissões tem efeitos de formação para cada um que dá de si e faz por onde a Escola acontecer.

O efeito de formação se dá por se tratar de um trabalho que se orienta pela lógica em jogo no fazer Escola. Essa experiência, desde a Orientação Lacaniana, coloca no centro o objeto a, como motor da transferência de trabalho.

Nesta mesma perspectiva, no início do ano, a diretoria, as coordenações dos seminários, o conselho, a coordenadora da revista Latusa e as coordenadoras das jornadas se reuniram.  A leitura de textos e discussões epistemológicas, delimitaram assim alguns fios orientadores que vêm norteando os trabalhos na Seção Rio.

Para afinar o tema das jornadas, Sandra Landim e eu lemos vários textos, até que a “Conferência em Genebra” de Lacan nos tomou no laço! Juntos diretoria, Conselho, coordenadoras das jornadas e a coordenadora da comissão de orientação, decidimos colocá-lo em circulação e fazer algumas conversações.

Após as jornadas se concluírem, avalio que este trabalho foi fundamental para criar um movimento de estudo em direção às jornadas formando um solo comum que favoreceu principalmente as discussões dos conceitos e as conversações nas plenárias clínicas.

Nesta mesma visada, a estrutura das Jornadas se deu a partir da comissão de orientação, de modo a ampliar o trabalho epistêmico de leitura. Incluímos encontros de discussões de textos com todas as coordenações das comissões das Jornadas, que pôde construir o trabalho epistêmico provocando pequenas elaborações.

Foram também constituídos 12 carteis em torno dos temas das jornadas tendo o Encontro Brasileiro no horizonte.

Queríamos um título que pudesse abarcar ao mesmo tempo a noção de materialidade significante do Sintoma, desde a possibilidade de interpretação até também a leitura do que itera e do que se lê como montagem, bricolagem, gambiarras feitas pelo falasser diante do real.

O título: “O Corpo Sutil do sintoma”, foi pensado a partir de uma frase do Lacan em Função e Campo “a Fala, com efeito, é um dom de linguagem, e a linguagem não é imaterial. É um corpo sutil, mas é corpo”. As palavras, os significantes, constituem o corpo e as sutilezas pedem leitura.

Nosso ponto de partida era: como as pessoas chegam nas análises hoje? De que modo dão notícias da sua experiência subjetiva, como o inconsciente comparece? Quais são os sintomas de chegada, e ao longo de uma análise o que se passa com o sintoma de quem consente com a análise?

Sabemos, com Lacan, que alguma coisa no sintoma é opaco, sem sentido, e que já está lá no início da análise e que podemos ler. Este ponto não se chega só no final da análise, ele pode ficar mais evidente na psicose, ou no trabalho de análise com as crianças, uma vez que as crianças estão mais próximas do real por não ter ainda um fantasma tão consolidado. Para lidar com este ponto de gozo que itera, o trabalho de análise pode ser um trabalho de bricolagem com pedaços de imagens, palavras, pequenos objetos. Por isso inserimos o subtítulo “Laços e Gambiarras”, seguindo também o debate do seminário clínico coordenado por Marcus André Vieira.

Na conferência em Genebra, Lacan aponta também para o que se constitui quando o encontro da linguagem, a língua do Outro, entra em choque com o corpo do infans e deixa marcas, detritos intraduzíveis. Esses detritos são o que compõe as sutilezas a partir de, e com as quais, o falasser vai forjar seu sintoma e se enlaçar na língua do Outro. Miller conceitualizou essas marcas enquanto gozo autista que ressoa, e que pede leitura.

Depois, com o Seminário 23, Lacan avança mais ainda nesta noção de materialidade e cria o conceito de sinthoma, com uma letra que não se pronuncia, mas que se lê, letra de escrita de um corpo frente ao real.

Aqui cabe uma das perguntas que o trabalho nos trouxe até as jornadas:

Como a psicanálise pode, hoje, ser útil para que cada um possa passar desse gozo autista ao laço com o Outro, fazendo ressoar sua sutileza que vivifica, sem ser mortificado pelo imperativo de ter que estar no laço a partir de um universal para todos como o do Capitalismo, da Ciência, ou da religião.

Por fim gostaria de lembrar que nossas jornadas ocorreram uma semana antes de um importante dia para nosso país. Votar é um ato, e é importante lembrar que a psicanálise não existe sem a democracia.

Agradeço mais uma vez ao Rodrigo Lyra diretor de seção Rio, a toda a diretoria a Presidente do Conselho Maricia Ciscato, assim como a todo o conselho, pela confiança em me convidar junto com Sandra Landim para coordenar as 33as jornadas “o corpo sutil, Laços e Gambiarras”.

Agradeço a Sandra Landim e a todas as coordenações  e participantes das comissões sem todos as jornadas não teriam sido possíveis.