Ana Beatriz Zimmermann e Rodrigo Abecassis
Chegamos ao final das 33as Jornadas Clínicas da EBP-Seção Rio e, com isso, nosso boletim se despede, não sem algumas palavras sobre o trabalho e o tema das Jornadas.
Em cada Jornada produzimos um boletim, que traz em seu nome algo que circunscreve ou tangencia o tema a ser trabalhado por nossa coletividade. Nesta Jornada isso não foi diferente. Fissuras surgiu a partir de um trabalho coletivo por muitas mãos, e foi pensado para que pudéssemos incluir a heterogeneidade do título das Jornadas- O corpo sutil do sintoma, laços e gambiarras. Fissuras em sua polissemia pode nos remeter a pequenas rachaduras, aberturas finas, marcas indeléveis, mas também, aquilo que traz o sentido da repetição ou um caminho feito pela chuva da linguagem no corpo.
Ao pensarmos no sintoma como uma noção cara à psicanálise, que desde sua origem traz o enigma e o decifrável, não podemos nos furtar em expor que a realização e produção de um boletim caminha ao lado do que entendemos por sintoma e sinthoma. Uma acepção freudiana do sintoma requer certa repetição e duração, nesse sentido o Fissuras tornou-se um “sintoma” das Jornadas, pois trouxe à leitura o enigma e decifração da escrita de cada escritor e leitor. Advertidos, ao mesmo tempo, que tanto na escrita, como no sintoma, há um indecifrável. Além disso, o que pode fazer laço ou não, o que pode ser uma gambiarra, no sentido mais comum, mas também, aquilo que pode ter servido a alguém em seu modo de gozo. Entre pensar, discutir e elaborar um boletim há uma série de caminhos que são percorridos, por cada integrante da comissão e coordenação das Jornadas. Cada um com seu sintoma, mas em torno de uma transferência de trabalho com a Escola. Aqueles que puderam escrever para o boletim, ou montá-lo, deixaram a sua marca do que pode ser lido e que reverberou em direção às Jornadas.
Agora, após a leitura dos boletins e o percurso das Jornadas, ficamos com seus restos sintomáticos, com o que foi possível escutar e ler em mesas bastante instigantes, com questões que nos levaram à decifração de sentidos das línguas espanhola e portuguesa, algo sintomático entre línguas, que sempre deixa um resto não traduzível ou um tanto estapafúrdio! Sem penar ou sofrer demais, as Jornadas deixaram suas marcas pelos trabalhos dos analistas comentadores e os praticantes, seja por um singular alfabeto, que faz laço com o Outro, ou a lixografia que nos depositou desenhos que puderam ser lidos num lugar êxtimo. Também a letra D que é fora de sentido e cabe a nós analistas manter o vazio de sentido e, com ele, afiar nosso instrumento cirúrgico clínico. Além disso, fomos banhados pelas excelentes referências freudianas, trazidas pelos alunos do ICP-RJ, e lacanianas trazidas pelas perspectivas do conceito, e cada caso foi retomado pelo que ressoou da letra do sintoma trabalhado. Caso frágil destacado por Andrea Reis, e ensino do passe onde Ondina com precisão nos ensinou como a relação com o objeto e com a Escola muda no final de uma análise. Muda-se a relação em atender as demandas do mundo.
O que resta para seguir trabalhando rumo às próximas Jornadas? Podemos dizer que pensar e construir as Jornadas desde o início articuladas ao próximo Encontro Brasileiro teve um efeito importante de nos remetermos a uma comunidade mais ampla de trabalho, onde ficou muito evidente que a partir da transferência de trabalho, pertencemos ao Campo Freudiano, à Escola Una, à Associação Mundial de Psicanálise. Nesse sentido, muitos praticantes de fora do Rio puderam tecer palavras do seu trabalho com os seres falantes em suas cidades.
Agradecemos primeiramente às coordenadoras das 33ªs Jornadas, Maria Antunes Tavares e Sandra Landim, por confiarem a nós a coordenação da comissão de boletim e um agradecimento especial à comissão, que demonstrou entusiasmo, além de ser desejante e implicada neste trabalho de tecitura de palavras, inventando um novo escrito a partir dos textos recebidos, dando o toque singular para que pudéssemos avançar no trabalho. São eles: Eduardo Gomes, Ingrid Valério, Larissa Pinto, Marina Sodré e Rafael Dias.
Até a próxima!
