Sandra Landim

Uma jornada é feita a muitas mãos, cabeças e corpos, agradeço a todos que estiveram envolvidos nestas 33as Jornadas Clínicas da EBP-Seção Rio. Estar na função de coordenação destas Jornadas junto com a Maria Antunes, foi muito ensinante. Pude aprender com os mal-entendidos, com o bem dizer dos colegas e assim fomos construindo as Jornadas Clínicas sobre o Sintoma. Tivemos como título O corpo sutil do sintoma: laços e gambiarras. Foi um verdadeiro trabalho de Escola, doze cartéis fulgurantes foram formados para trabalhar o tema das Jornadas e visando também o XXVI Encontro Brasileiro do Campo Freudiano, Barulhos da língua: a interpretação entre a fala e a escrita.

Desde o início, enfrentamos o desafio de inventar um formato diferente, capaz de acolher nossa comunidade e, ao mesmo tempo, favorecer a conversação clínica. Foram plenárias clínicas, trabalhamos a clínica em todas as mesas. Os autores dos casos estavam na plateia participando da conversação, colegas abordaram a lógica dos casos e outros trabalharam suas articulações conceituais. Apostamos em mesas com tempo amplo para a discussão e conseguimos realizar uma jornada vibrante, marcada por trocas e conversações muito ricas.

O tema, sintoma, o título, “o corpo sutil do sintoma, laços e gambiarras” … onde achar sutileza nesse processo, nessas marcas que nada tem de sutis? Nos voltamos à infância, compreendendo, então, que é na montagem do sintoma que existe uma sutileza. A criança é banhada pela linguagem. Antes mesmo de falar, a criança é falada, recebe um nome, é incluída em histórias familiares, expectativas, significantes e fantasias. Como já trabalhamos bastante nesses dias, Lacan emprega uma imagem para explicitar esse momento: a linguagem do Outro passa por uma peneira onde ficam detritos com os quais a criança brinca, tropeça e com o que, mais tarde, vai ter que lidar. O sintoma sustenta. Faz laço, na conf. em Genebra, Lacan diz que os sintomas têm um sentido, e só podem ser interpretados corretamente em função das primeiras experiências da criança, e que para serem interpretados é preciso que o sujeito deixe cair algo, isto é, que haja possibilidade de um furo naquilo que o sustenta. Esse paradoxo se esclarece quando o sintoma vai sendo lido a partir de uma cadeia significante que na análise vai deslizando, se deslocando, se descolando, e o sujeito vai tendo que se haver com isso. No final de seu ensino, Lacan volta às primeiras conferências de Freud e concebe um modo de deslizamento do sintoma. Ele insere uma letra, o h mudo, uma letra que faz toda a diferença. A partir do que trabalhamos, pensei, que é nessa letra que o sujeito pode encontrar um intervalo. A letra é um fora de sentido que pode operar como intervalo. Intervalo onde pode surgir uma invenção. Então, no último Ensino o furo não está dado, há uma letra que faz furo na significação, mas ela mesma pode ser um intervalo para que o sujeito encontre um espaço. Não se trata de extirpar o sintoma, mas de saber fazer com ele, o que não é tarefa fácil.

Encerramos as Jornadas sem fechar o tema, ao contrário: que algo permaneça aberto, que o sintoma continue nos fazendo trabalhar. Que alguma pergunta possa seguir conosco, talvez uma letra, talvez um resto.

Estas Jornadas, não são para concluir, mas para fazer seguir o trabalho. Que aquilo que ficou em aberto possa nos acompanhar até o XXVI Encontro Brasileiro do Campo Freudiano e que, lá, outras perguntas, letras e restos possam encontrar lugar.

O que fica para mim desse ano de trabalho, não é uma conclusão sobre o sintoma, mas a possibilidade de continuar a escutá-lo, de continuar a lê-lo.