Maria Antunes e Leonardo Miranda
Na orientação lacaniana, o corpo não se reduz a uma realidade biológica, mas constitui um efeito da incidência da linguagem sobre o corpo. Nessa perspectiva, o sintoma é compreendido como uma modalidade singular de tratamento do gozo, articulando-se à noção de falasser e aos modos pelos quais cada sujeito responde ao real que escapa à simbolização. A investigação das relações entre corpo, gozo e sintoma permite examinar tanto as formas contemporâneas de subjetivação quanto os efeitos dos discursos sociais sobre a economia libidinal e os processos de constituição subjetiva.
Ao longo de seu ensino, Lacan promove importantes deslocamentos na concepção de corpo. Se, inicialmente, o corpo é abordado a partir de sua dimensão imaginária, tal como formulada no estádio do espelho, posteriormente novas dimensões são incorporadas à sua elaboração. Em seu último ensino, o corpo é concebido como suporte do gozo e como efeito da incorporação do simbólico: “O corpo, […] abordado por Lacan pelo imaginário pela identificação, nesse registro, deixa de ser situado segundo um ponto simbólico no exterior; agora, ele é captado pela incorporação direta do simbólico” (LAURENT, 2016, p. 31).
Nessa mesma direção, o sintoma deixa de ser considerado apenas como uma mensagem a ser decifrada para ser pensado também em sua dimensão de gozo, resistente à interpretação. É nesse contexto que Lacan o define como um acontecimento de corpo: “[…] o sintoma se limita a uma pura escrita sobre o corpo, ele não fala. Abre-se na análise, desde então, uma experiência que não passa pela fala” (LAURENT, 2016, p. 46). O que não implica a exclusão da fala da experiência analítica, mas indica que esta não se reduz à produção de sentido. A análise passa pela fala para alcançar aquilo que, no sintoma, se inscreve como marca de gozo sobre o corpo.
Na “Conferência em Genebra sobre o sintoma”, Lacan afirma que “é sempre com a ajuda das palavras que o homem pensa. E é no encontro dessas palavras com o seu corpo que alguma coisa se esboça” (LACAN, 1975, p. 9). Tal formulação indica que o corpo humano não constitui um dado natural anterior à linguagem, mas é marcado pela incidência do simbólico. No último ensino, esse encontro entre o corpo e lalíngua pode ser concebido como traumático, na medida em que produz marcas de gozo que não se reduzem ao sentido e que encontram no sintoma uma forma singular de inscrição.
Lalíngua, linguagem e corpo
Nessa mesma conferência, Lacan compara o corpo a uma peneira que retém pequenos detritos da água da linguagem. É com esses detritos que a criança vai brincar e mais tarde ter que se virar. Ele vai chamar esses detritos de lalíngua. E n’O seminário, livro 23: o sinthoma (1975-1976), Lacan vai dizer que o corpo se apresenta inicialmente como uma superfície, uma linha reta, composta por uma multiplicidade de S1 soltos, um excesso de gozo.
Patricio Álvarez Bayón (2024), retomando todo o percurso de Lacan e os avanços de Miller e Laurent sobre lalíngua na clínica com o autismo, retomará que para a construção de um corpo será necessário que haja uma elucubração de saber por parte da criança. Essa elucubração de saber ocorre por meio da amarração entre o real, o simbólico e o imaginário. É essa amarração que constitui uma borda para o furo e, consequentemente, possibilita a constituição de um corpo.
Nessa perspectiva, temos nos perguntado de que modo esses S1 soltos que constituem o corpo – aquilo que Lacan denomina lalíngua – se apresentam na clínica como algo que ressoa e dá notícias de que nessa amarração entre real, simbólico e imaginário haverá sempre algo desse furo, desse gozo, que insiste em ressoar.
