Ruth Helena Pinto Cohen  

Cartel: Litoral Sonoro de Lalíngua

Cartelizantes: Clarisse Boechat (mais um), Dinah Kleve, Juliana Serfaty, Rodrigo Pedalini e Ruth Helena Pinto Cohen

“O real é estritamente o que não tem sentido. Por essa razão, nossa interpretação é alguma coisa que só tem a ver com o real pelo fato de a dosarmos”.[1]

Escutar delírios e alucinações, secretariar, escrever a verbosidade de alguns sujeitos, me instiga a perguntar, com Lacan: “Onde escutou o que articula?[2]

Como interpretar o impossível- o monólogo que escorre do fluxo desenfreado da linguagem cristalizada, quando itera, sem equívocos? Qual é o estatuto da interpretação, quando a lalíngua materna, emitida sem filtro, atravessa diretamente um corpo, expondo fragmentos do real, que não se organizam em texto?

Se o Outro, concebido como corpo – “lugar onde os significantes se inscrevem como letras localizadas”[3] – não permite que os cacos de lalíngua encubram o real, então o que se apresenta é a materialidade bruta da linguagem, sem mediação simbólica.

Basta caminhar pelas ruas da cidade para nos depararmos com corpos errantes, atravessados por vozes imperativas, alucinatórias, muitas vezes circunscritos aos muros de instituições ou “psicoterapeutizados.” Diante disso, uma pergunta insiste: o que, no tratamento analítico, permite que os barulhos da língua- essa chuva de significantes não ravinados no solo linguageiro-, essas jaculações de gozo sem recortes, possam sofrer mutações e permitir novos arranjos, que permitam criar sentimentos de vida passiveis de suportar?

Quando Miller[4] afirma que “prefere o real”, remete ao momento em que Lacan introduz   a noção do “Um encarnado na alíngua[5]”. Essa concepção é tensionada pelo nó como paradigma do real, impondo à clínica um saber-fazer com os restos, com os quais os sujeitos sustentam suas existências.

 

 


[1] Lacan, J. Journées des cartels de l’École freudienne de Paris.  Maison de la chimie, Paris: Lettres de l’École freudienne, 1976, n°18.
[2] Lacan, Conferência de Genebra sobre o sintoma, Opção lacaniana n 23.
[3] Laurent, E. Noche abierta de la EOL “La letra lacaniana
[4] Miller, J.A. O lugar e o laço, lição de 24/01/2001
[5] Lacan, J. livro XX, pag 196.